3 de novembro de 2008

Capítulo I - "Apresentação" - parte IV

14 de Outubro de 2009 – Tóquio/Japão

O velho Takeishi Hirogawa acendeu um charuto e sentou-se na sua poltrona, de frente para a janela que dava uma bela vista noturna à cidade de Tóquio.
Takeishi fora economista no passado, um dos mais importantes do país entre os anos 70 e 80. Acumulou muita fortuna e fama neste período, que lhe renderam contatos na política, exército entre outros. Foi considerado fundamental na industrialização japonesa com capital americano, sendo consultor de várias empresas, principalmente no setor imobiliário e automobilístico. Mas isso era passado. Os dias no palácio trocando informações com ministros e presidentes de companhias japoneses, americanas e européias havia ficado para trás. Agora tinha 63 anos, rugas e quase nenhum cabelo. Com o dinheiro, havia comprado a cobertura em Tóquio, além de uma casa de veraneio na Itália. Adorava viajar, principalmente depois da aposentadoria. Dedicava-se a ajudar o filho Kenzo a tocar as empresas que um dia foram dele, além de passar tempo com os netos, mas mesmo assim de certa forma era solitário. A solidão era causada em grande parte pela perda da companheira de longa data, Marta. Conheceu-a em um encontro de economistas nos Estados Unidos em 1973. Tinha então 27 anos e era apontado como um prodígio em seu país. A jornalista ruiva de 23 anos e cheia de sardas o encantou. Foi amor a primeira vista. Começaram a conversar e seis meses depois estavam morando juntos em um simples apartamento em Nagoya. Três anos depois veio o fruto da união, Kenzo. Quando as coisas começaram a melhorar para Takeishi, em 1978, se mudaram para a capital. Marta sempre esteve ao seu lado, quando decidiu criar sua própria empresa de consultoria econômica, quando resolveram ir para Tóquio cuidar dos negócios. Havia uma relação de respeito mutuo, tanto que haviam decidido ficar juntos para sempre, não importando o que acontecesse. Porém o câncer foi mais forte, eles tentaram de tudo. Takeishi acionou seus contatos, fizeram tratamentos em Paris, Berlim, Londres, Nova York, Havana, mas não adiantou. A resistência de Marta era baixa, já havia passado dos cinqüenta anos. Sendo assim, em fevereiro de 2003 Marta Stewart Hirogawa faleceu de câncer no cérebro. Foi o fim para o economista. Com 58 anos e um filho de 27 resolveu abandonar os negócios e se aposentar oficialmente. Não tinha mais vontade de viver, tampouco trabalhar. A neta foi um consolo para o velho Takeishi. A filha de Kenzo nasceu em março de 2004, pouco mais de um ano após a morte de sua mãe. Chamava-se Ryoko e era fruto de um namoro sem sucesso do herdeiro Hirogawa.
O interfone tocou. “Senhor Hirogawa, seu filho Kenzo está aqui”, disse uma voz vinda do aparelho. “Mande-o subir”. Poucos instantes depois, Kenzo Hirogawa surgia em frente de seu pai. Tinha 33 anos e a mesma fisionomia do pai, com alguns traços ocidentais da mãe. Não era muito alto, tinha pouco mais de setenta centímetros acima de um metro. Estava dentro dos padrões, porém um pouco abaixo do peso. O trabalho o estava consumindo. Vestia um terno preto, indicando que havia saído a pouco tempo do trabalho. Se por um lado não era um prodígio como o pai, por sua vez exercia bem a função de administrador e líder da Hirogawa Corp. Tanto que a empresa estava para ser vendida para uma das gigantes mundiais do setor de consultoria, a holandesa Van der Graaf, por quase cento e cinqüenta milhões de dólares.
- Boa noite, velho – disse Ken saudando o pai
Takeishi não respondeu, apenas sorriu e abriu a porta de madeira, estendendo a mão para fora, convidando o filho a entrar. Ken estava adentrando o apartamento quando o pai o interrompeu
- Não está esquecendo nada? – disse, apontando para os pés de Kenzo. Não havia tirado os sapatos. Takeishi ainda conservava alguns típicos costumes japoneses. Achava que todos ainda deviam, mas a globalização fez cair no esquecimento de boa parte o que seus antepassados faziam antes de existir uma placa de neon e uma rede de internet em qualquer canto do Japão.
Kenzo sorriu perante seu descuido. Retirou os sapatos e entrou no apartamento do pai.
A porta de entrada levava à sala de estar. Havia uma grande mesa retangular com seis cadeiras, dispostas em 2 pares de cada lado, uma em cada ponta. O piso era uma espécie de carpete bege, adequado para se pisar sem sapatos. A esquerda estava a cozinha, com azulejos brancos, uma mesa menor, com apenas quatro cadeiras e alguns eletrodomésticos. Passaram reto. À direita, o quarto do dono da casa. Era grande, com uma cama de casal e uma grande televisão. Passaram reto e andaram mais um pouco até chegarem na mesma sala de frente para Tóquio em que o pai repousava até receber o comunicado da presença de Kenzo. Takeishi indicou uma poltrona de couro para que o filho sentasse. Foi até o bar localizado à direita da sala, retirou uma garrafa de uísque que já estava pela metade e disse para o filho:
- 12 anos? Presente de um deputado escocês que veio aqui no começo do ano. – Colocou um pouco do liquido em um copo, que também continha algumas pedras de gelo.
- Por que não? – respondeu o filho.
Takeishi sorriu levemente e colocou um pouco em um copo para o filho. Fechou a garrafa, colocou-a de volta onde tinha pegado. Segurou um copo em cada mão e caminhou em direção ao filho. Deu o copo que estava na mão esquerda ao filho e ficou com o da mão direita. Sentou-se em uma poltrona ao lado da do filho. Voltou a fumar o charuto. Pegou outro em um estojo dourado que deixava na mesma mesa onde havia repousado o copo. Ofereceu ao filho. Sabia que Kenzo não fumava, então ouviu uma negativa.
Entre as poltronas, uma pequena mesa de vidro, apropriada para colocar bebidas. Kenzo deu um gole na bebida e a colocou na mesa. Havia um jornal sobre ela, o qual Kenzo pegou e começou a folhear. Takeishi fez a mesma coisa, colocando o copo ao lado do copo do filho.
- Gostou da noticia? – perguntou Takeishi ao ver que seu filho lia uma matéria no jornal do dia. 14 de Outubro marcava no topo da página.
- “Proposta de 112 milhões de dólares da Van der Graaf faz ações de Hirogawa dispararem do mercado”. – disse Kenzo reproduzindo o que estava escrito na primeira manchete do caderno de economia – Quem não ficaria feliz?
- Você conseguiu – disse Takeishi, que em seguida esticou a mão e deu um tapa nas costas do filho – Olhe lá para baixo. Vê todos aqueles letreiros luminosos e todas aquelas empresas anunciantes? – Do apartamento podiam-se ver vários anúncios luminosos, com grandes letras vermelhas, brancas, azuis, piscando, anunciando empresas dos mais variados serviços e nações. – Você trabalha para pelo menos 70% delas. Parabéns por me fazer orgulhoso – completou.
- Pai... Se você soubesse o que descobrimos hoje não ficaria tão feliz assim. – Kenzo estava visivelmente preocupado e não parecia tão feliz com a proposta de mais de meio bilhão de dólares por sua empresa.
O sorriso desaparecera da face de Takeishi. Agora seus olhos pareciam preocupados. Fitava o filho com uma expressão confusa, sem entender o que queria dizer. Ou pelo menos tentando não querer entender. Kenzo prosseguiu
- Fazendo análises do mercado financeiro mundial, com nossos parceiros em Londres, Dubai, Riad, Shangai, Kuala Lumpur, Nova York, Paris... – de alguma forma parecia não querer acreditar no que estava para dizer – A crise do ano passado foi apenas uma prévia do que está por vir.
- O que você quer dizer? – perguntou Takeishi visivelmente alterado – Como assim, Kenzo? Apenas uma prévia?
- Percebemos uma sutil diferença na exploração de petróleo nos países do Oriente Médio, principalmente na Arábia Saudita e no Irã. Por enquanto a diferença é algo bem sutil, coisa de vinte mil barris por dia. Mas o que é mais alarmante é que começou a cair cerca de quinze dias atrás, a redução foi de mil e quinhentos barris. Parecia que era um dia ruim, afinal, são máquinas. No outro dia, foram produzidos dois mil barris a menos. E assim está indo. Chegamos à conclusão que algum dia a redução será significativa. E quando isso acontecer – hesitou – prefiro nem pensar no que pode acontecer.
- Ora, Kenzo, não seja tão ingênuo. Aqueles petrodólares às vezes parecem infinitos. E além do mais, as bolsas estão voltando a subir, a economia ruma a estabilidade. Por que diabos os números só diminuem? Em breve devem se estabilizar. – disse, desdenhando da preocupação do filho – Se por acaso houvesse algo, todos saberíamos. Talvez não todos, mas a Van der Graaf sim. Eles também teriam percebido isso, e não ofereceriam 112 milhões de dólares na empresa.
- Talvez pai, espero que esteja certo. De qualquer forma graças ao senhor temos contatos a mais...
Takeishi o interrompeu
- Robert Van der Graaf foi consultor da empresa petrolífera mais importante da Europa. Ele trabalhou com o governo holandês e britânico. Garanto que possivelmente ele tem mais contatos do que vocês. Escute, apenas concretize a venda, certo? Assim você terá dinheiro suficiente para cuidar de você, Ryoko e...
Dessa vez o pai que foi interrompido
- Não! – Kenzo interrompeu prevendo o que o pai falaria.
- Hattori. – concluiu o pai – Ora filho, você também precisa casar, a pequena Ryoko precisa de uma mãe. Você tem quase trinta e cinco anos.
- Na verdade nem fiz 34 ainda – interrompeu – e Hattori é apenas uma boa amiga.
- Eu vi o jeito que ela te olha. O jeito que ela trata sua filha. Você sabe que eu não falaria algo pra te prejudicar, certo? Veja, preste mais atenção. – Takeishi franziu a testa em um gesto de preocupação - Por acaso quem está com sua filha hoje?
- Está com a mãe dela. – Kenzo desconversou sobre Hattori e viu seu pai suspirar – Ora, vamos. Ela também tem direito, e não é nenhuma irresponsável.
- Se não fosse vocês estariam juntos. – replicou o pai, nervoso. Odiava quando a neta ficava com a mãe. Nem a conhecia direito, tampouco sua família. Sabia que eram pessoas normais, porém os anos como economista lhe renderam uma falta de confiança extrema. As vezes desconfiava até da própria sombra.
- É, velho Takeishi, algumas coisas nunca mudam. Nunca mudam. – soltou um sorriso e deu mais um gole no whisky que estava a seu lado.
Takeishi riu também. Pegou o copo, brindou com o filho e tomou mais um gole.
Ficaram observando o movimento de Tóquio pela noite de 14 de Outubro. Havia bastante movimento. As nove horas da noite se aproximavam. O uísque estava quase no fim.
- Está com fome, Ken?
- Sim, não comi nada relevante desde as seis horas, quando sai do trabalho. O que você tem para mim? – disse Kenzo, virando-se para o pai, esperando que a pergunta havia sido um convite.
- Eu nada. – riu – vá jantar com Hattori. – viu que o filho se preparava para falar algo – E não me venha com negativas. Sinto que ela é a pessoa certa.
Kenzo desistiu de qualquer tipo de resposta e pensou em acatar a sugestão do pai. O que custaria? Hattori era jovem, bonita e trabalhava na Hirogawa faziam 3 anos. Além do mais eram bons amigos. Era sua secretária, afinal, tinham que ser bons amigos, pensou Kenzo. Além do mais, sentia-se sozinho. Só tinha tempo para o trabalho, nada mais. Nem sua filha via com freqüência. As coisas vão mudar – pensou – afinal, vou vender a empresa, terei tempo para mim e Ryoko. Sinto a falta dela.
- Vou ver o que faço – disse Kenzo. Com um gole maior tomou o resto de whisky que tinha no copo. – de qualquer modo vou jantar agora, com ou sem Hattori. Quer ir comigo?
- E estragar seu encontro? Nem pensar – o velho Takeishi ainda tinha senso de humor.
Kenzo riu de novo.
- Mas eu nem sei se ela vai aceitar. Já é tarde e é meio de semana. Talvez ela não queira sair.
O velho Takeishi lançou a ultima:
- Talvez vocês acabem tomando café da manhã juntos – e soltou uma gargalhada. Levantou-se e andou em direção a porta – Agora vá antes que fica realmente tarde.
Kenzo levou as mãos a cabeça, tentando não acreditar que o pai havia falado aquilo, porém no fundo achou engraçado e estava rindo.
- Estou indo, velho.
- Depois me conte como foi. – disse abrindo a mesma porta pela qual entraram.
Kenzo estava quase partindo quando seu pai o chamou de novo. “Não está esquecendo algo?”, disse apontando para seus pés outra vez. Kenzo sorriu, calçou os sapatos e esperou o elevador chegar. Entrou e apertou o botão que o levaria ao piso térreo. A porta de metal se fechou a sua frente e o elevador logo fez um barulho e começou a se movimentar. Pensava nas palavras de seu pai. A porta abriu com um barulho e ele saiu do elevador. Acenou para o porteiro e pegou seu celular. Começou a mexer na agenda procurando o numero de Hattori enquanto caminhava rumo ao portão que separava o prédio da rua. Abriu o portão e finalmente achou o numero de Hattori. Agora faltava achar a chave de seu Mazda RX-8 vermelho. Procurou em seu bolso e apertou um botão, o que fez com que a porta do carro fosse destravada com um clique. Entrou enquanto apertava o botão de chamada em seu celular de ultima geração. Na tela do seu telefone aparecia uma indicação de chamada. “Chamando: Hattori Rukian”. Kenzo por um momento hesitou, mas decidiu continuar. Entrou no carro e colocou a chave no contato. Colocou o celular no console e ligou o viva-voz, sincronizando o aparelho com o rádio de seu carro. “Deus abençoe a tecnologia”, pensou. Apertou o cinto de segurança quando uma mulher atendeu o telefone. Era Hattori. Tinha uma voz doce. Era uma boa pessoa.
- Alo? – disse a mulher
- Hattori? – perguntou Kenzo. Sabia que era ela, mas tinha habito de perguntar.
- Sim. – disse – Oh, é você, Ken? Aconteceu alguma coisa? – parecia preocupada
- Não, não... – disse, dando a partida no carro. O poderoso motor do Mazda fez um barulho – eu só queria saber... – hesitou
- Sim?
Silencio. Ken pensou em desligar o telefone e inventar alguma desculpa depois.
- Tem certeza que está tudo bem, Ken? – Hattori realmente estava preocupada
- Olha, peço desculpas desde já, mas tem algo que eu gostaria de falar para você – disse com pausas.
- Eu não... – parecia que ia chorar – estou demitida, estou? – claramente estava começando a chorar.
- Não, não – riu – você é uma das melhores que temos.
- Então o que foi? Estou ficando preocupada, Ken?
- É besteira, mas... – Ken percebeu que ainda estava parado apenas com o motor ligado. Girou um botão, o que fez com que os faróis de xenon de seu Mazda se acendessem, iluminando seu caminho. Engatou a primeira marcha e acelerou – é que eu gostaria de saber se você... já jantou. – disse. Riu de sua própria vergonha – viu, disse que era besteira.
- Bom, era só isso? – riu Hattori – que susto, Ken, pensei que fosse algo mais sério. Na verdade... – estava meio sem jeito.
- Ah sim, poderia ter imaginado – Kenzo estava mais sem jeito ainda. Sentia-se um idiota. Um idiota com um pouco de raiva do pai. – desculpa incomodar, te vejo amanhã.
- Não, espere! – Hattori gritou quando Ken estava prestes a desligar – Na verdade não jantei ainda, estava esquentando qualquer coisa aqui, mas posso deixar para outra hora. Tem planos?
- Olha, você não está dizendo isso só porque sou seu chefe, certo? – estava desconfiado. Hattori faria qualquer coisa para agradá-lo, e ele sabia disso.
- Não, não. Verdade. Estou disponível esta noite.
Kenzo se sentia aliviado. Parou em um cruzamento. Haviam carros demais circulando para o horário, pensou consigo antes de responder.
- Sei que está um pouco tarde, mas você não gostaria de jantar comigo? – perguntou. Se Hattori pudesse vê-lo, certamente teria corado ao ver seu chefe vermelho, sentindo-se envergonhado, mesmo fFrançoisdo pelo telefone.
- Claro! – parecia entusiasmada – vou me arrumar. Aonde iremos?
- Você escolhe. – estava feliz que havia recebido um sim. A mãe de Ryoko era a ultima mulher com quem se relacionara. Pensou que havia perdido o jeito com as mulheres. – Bom, então passo para te pegar ai na sua casa, não devo demorar.
- Certo. Então... a gente se vê daqui a pouco – realmente estava entusiasmada.
- Certo. – Kenzo também estava. – Até daqui a pouco.
- Até.
E desligou o telefone. Kenzo estava dirigindo rumo a sua casa. Iria tomar um banho, trocar de roupa e passaria na casa de Hattori. A noite prometia. Seu pai realmente não errava uma. Contaria para ele depois, agora se preocupava em chegar em casa o mais rápido possível e então levá-la para jantar. Deixaria que escolhesse o restaurante. Ou seria melhor ele escolher? Pensou novamente no pai. “Vou ligar para ele, ele deve conhecer um bom restaurante”, pensou quando começou a discar o numero do pai de seu celular. Parou. “Não, Kenzo. Você tem quase trinta e quatro anos e quer conselhos de seu pai sobre onde levar uma garota? O que há de errado com você?”. “Ora, vamos, eu não tenho tempo de conhecer restaurantes de classe por aqui, afinal minha vida é o trabalho. Se alguém fosse me recomendar um restaurante seria a própria Hattori, oras. E além do mais, o velho Takeishi tem experiência, ele saberá me ajudar”, respondeu a si mesmo, enquanto sua mente travava uma batalha com ela mesma. Voltou a discar o numero da casa do pai. Não demorou muito e ele atendeu.
- Então?
- Então o que? – surpreendeu-se ao saber que o pai sabia que era ele
- Convidou ela para jantar?
Kenzo soltou uma risada baixa.
- Sabia que você conseguiria, mas não esperava que me ligasse tão cedo. Por que ainda não está com ela?
- Vou para casa tomar um banho, depois passo para pegar ela – respondeu – mas tem um problema. Não tenho idéia aonde levá-la.
Foi a vez de Takeishi rir.
- Não tem idéia? Não acredito nisso – continuava rindo.
- Se não vai me ajudar eu vou desligar – Kenzo disse, ameaçando ficar irritado.
- Pois então desliga. – continuava rindo – Não consigo acreditar que você vai vender uma empresa de consultoria financeira por cento e doze milhões de dólares e não faz idéia de onde levar uma garota para jantar. Você as vezes é muito estranho filho.
Ao invés de ficar irritado, Kenzo pensou sozinho “É verdade”.
- Está certo. Boa noite, tenho algum tempo para decidir.
- Antes de desligar, me responda uma coisa: onde ela mora?
Kenzo preparou-se para responder, mas as palavras não vieram. Na verdade, não sabia onde ela morava. Levou uma mão à cabeça. Com a outra virava o volante para fazer uma curva. Não percebeu que o semáforo estava fechado e quase colidiu com um carro prateado que vinha na reta. O mesmo buzinou. Ligaria novamente para Hattori, então descobriria onde ela morava. A menos que ela percebesse isto antes e ligasse para ele. Seu pai o chamava na linha.
- Ken, dormiu por aí?
- Estava pensando. Boa noite pai, te ligo depois
- Mas ainda não me respondeu onde ela mora.
- Boa noite. – e desligou.
- Ele não sabe. – riu sozinho com o telefone na mão – Ele não sabe onde a garota mora. – e gargalhou mais uma vez. – Kenzo, Kenzo. – riu uma ultima vez e colocou o telefone no gancho. Voltou para seu charuto e sua poltrona, observando Tóquio pelo vidro da janela.

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