14 de Outubro de 2009 – Dallas/EUA
Abriu os olhos e se viu de frente a uma pequena multidão, que gritava. Sentiu os longos cabelos louros, que caíam até a cintura. Estava em cima de um palco, segurava um microfone com a mão direita. O suor escorria pelo seu rosto.
– Essa próxima musica garanto que todos vocês aqui conhecem! É um tributo a uma das bandas que mais nos influenciou: Livin’ on a Prayer!
Olhou para o lado direito, onde estava outro homem com longos cabelos, dessa vez eram castanhos. Segurava uma Fender Stratocaster bege em posição de canhoto. Seu nome era Jim. Jim olhou para o homem com microfone, fez um sinal com a cabeça e disse: “Vamos lá, Tom!”. Tom olhou para a esquerda, onde outro homem, dessa vez completamente careca, porém com barba e um óculos escuro batia as palmas. Tinha um contrabaixo também Fender em suas mãos. Tony era seu nome? Tom não sabia ao certo. Olhou para trás. Batendo as baquetas um homem desconhecido sentava atrás de uma bateria. Tom não conseguia distinguir seu rosto. Acima do homem, uma faixa vermelha com letras pretas dizia: “Parabéns classe de 1993! Dallas se orgulha de vocês!”. “1993?” – pensou Tom. – “Estou na faculdade. Ótimo”.
O lugar onde se encontrava era relativamente pequeno e escuro. Havia alguns pôsteres de famosas bandas dos anos 80 e 70. Tom não sabia ao certo, mas adorava aquele lugar, mesmo que o cheiro de maconha fosse quase insuportável em dias de shows. “Ai estão os futuros engenheiros do Texas. Grande!” – pensou de novo Tom. Na platéia várias pessoas gritavam, mais a frente garotas gritando o que parecia ser o nome da banda que tocava, mas Tom não conseguia entender muito bem. Estavam visivelmente bêbadas e algumas de tão alcoolizadas que estavam levantam as camisetas, mostrando belos pares de seios, que encantavam a todos. No fundo, rapazes gritavam o nome da banda. Alguns tocavam guitarra imaginária, enquanto outros baixo e um rapaz solitário imitava os movimentos de uma bateria. A maioria segurava copos ou garrafas de cerveja. Tom mesmo ao olhar em cima dos amplificadores constatou que bebia uma Budweiser. Em um cinzeiro do lado da lata, um baseado estava aceso. “Ah, então é por isso que eu não me lembro de nada?” – pensou de forma irônica enquanto franzia a testa. Voltou a olhar pra frente e ouvia gritos. A introdução da musica havia começado, era melhor se concentrar em cantar.
Veio o primeiro verso, seguido do segundo. Na platéia, as garotas com os seios de fora pareciam hipnotizadas. “Maldita droga”. No fundo, alguns rapazes gritavam e levantavam as mãos, parecendo pedir ajuda ou vibrar com a musica. Tom estava muito bêbado para distinguir. Veio o segundo verso e um certo tumulto começou a acontecer no fundo do lugar onde tocavam e como o lugar era muito escuro e Tom só conseguia enxergar as pontas acesas dos cigarros alem de vultos e alguma outra coisa que os refletores acima do palco iluminavam, resolveu ignorar. O tumulto foi ficando maior, as pessoas gritavam mais. Tom ia chegar ao refrão quando Jim parou de tocar guitarra e cutucou o vocalista
- Faça alguma coisa, droga, está fora de controle!
Tom não sabia propriamente o que, mas resolveu acalmar os ânimos, afinal Jim estava sempre certo.
- Pessoal, parem com isso! Vamos apenas curtir a musica! – Percebeu que falava enrolado e lentamente. Estava drogado. Drogado e bêbado.
Jim ao ver que não dava resultado resolveu interromper a musica. Tomou o microfone de Tom, olhando feio para o amigo. Jim estava sóbrio, sempre estava.
- Vou precisar mandar os seguranças ai? O que está havendo? – Estava gritando, mas nem ele mesmo podia se ouvir, os gritos provenientes da platéia eram muito altos. Viu algumas pessoas correndo, deixando cair cerveja no chão, junto com cigarros, um tumulto realmente estava acontecendo. Jim pensou que era mais uma briga.
Tom olhou fixamente para a concentração maior de pessoas. As garotas já haviam colocado suas roupas e agora gritavam. Teve impressão de que viu sangue jorrar na platéia. “Mas que merda?”. Olhou para trás, onde estava o baterista. A bateria estava caída no chão com um barulho. De pé atrás dela não estava um homem propriamente dito. Talvez fora um dia, mas não, não era mais. Seus olhos estavam vermelhos e parecia que chorava sangue. Seu nariz se resumia a dois buracos em sua cabeça e por ele também saia sangue. Sua boca era um buraco circular com alguns dentes em volta. O que saia de lá era uma mistura de baba com sangue, que respingava em sua camiseta do Van Halen. “Um zumbi do Van Halen? O que havia naquela maconha?” – Tom gritou e riu. Jim não estava rindo. Parecia preocupado, sua palheta havia caído no chão. Estava imóvel. Também estava vendo o homem. Não era sonho, então. Tom ouviu um grito vindo do seu lado esquerdo e olhou. O careca e seu baixo eram derrubados por cerca de três homens e uma garota. Ambos pareciam mortos, mas estavam vivos. Os pescoços de ambos estavam praticamente destroçados, revelando uma grande quantidade de carne viva. Havia sangue por todo o lado e o careca era mordido na cabeça. Quando caiu, seu contrabaixo preto se chocou com a sua cabeça, abrindo um corte e deixando-o inconsciente. O óculos escuro caiu, revelando olhos vermelho-encarnados.
- Ei, Jim, algo está muito errado aqui cara. – Tom estava assustado. Jim permanecia imóvel e o homem disforme os observava. – Jim, meu chapa, vamos cair fora. – Tom ouviu um barulho de explosão. Vinha de fora do local. Olhou e a porta caiu, fazendo com que todos os que atacavam fossem embora. De uma forma estranha Jim e Tom não estavam sendo atacado. – Jim, acorda! – gritou desesperado cutucando o amigo. Não se mexia. – Ta bom, fica por ai, eu vou cair fora.
Tom virou-se e ia embora, já que a casa de shows estava vazia. Tudo estava destruído. Pelo chão, pôsteres de Judas Priest, Ozzy Osbourne, Metallica. Ouviu um som esganiçado atrás dele, em seguida um grito. O homem estava mordendo Jim no pescoço. Uma mordida e sangue começou a voar. Jim estava morto. Ou pelo menos parecia. Achou o mesmo do baixista, mas ele se levantou e correu para fora quando todos saíram. Tom não esperou mais e começou a correr. Enquanto pulou do palco, sentiu algo caindo atrás dele, forçando-o para o chão. Ouviu um barulho e sentiu muita dor. Havia quebrado o nariz, atrás dele, o homem disforme o mordia na nuca. Tentou acertar algumas cotoveladas, mas nada adiantava. Sentia uma dor profunda em sua cabeça. Uma arma repousava a seu lado direito, no chão. “Que conveniência”. Esticou a mão, mas ao invés de sentir a arma sentiu uma mordida em seu pulso. Era Jim. Tom teve sua mão arrancada na mordida. Soltou um alto grito de dor.
Tom levantou-se com um grito e uma expressão de susto na cara. Estava branco e todo molhado de suor. Seus cabelos agora eram pouco acima dos ombros. Estavam lisos e grudados a sua pele. Sua mulher levantou em seguida, assustada com o repentino despertar de Tom.
- O que houve??? – perguntou a mulher desesperadamente – Tomas, o que há de errado com você?
Tom respirava rápido. A primeira coisa que fez foi levantar a mão direita. Estava lá. Foi apenas um sonho. Levantou-se sem ouvir as palavras da mulher. Correu para o banheiro, levantou a tampa do vaso e vomitou. Pouco tempo depois sua mulher chegou ao banheiro. Tinha cabelos castanho-escuros, na mesma altura do que os de Tom, olhos verdes e pouco mais de um metro e setenta. 1,72, para ser mais exato. No momento, arrumou um pouco os cabelos desarrumados e ajeitou sua camisola rosa. Tinha um belo corpo. Conhecera Tom na faculdade de Dallas, onde ele tinha uma banda de rock, no começo dos anos noventa. Cursavam engenharia. A diferença é que ela seguiu a profissão enquanto Tom tentou ser músico, sem muito sucesso, pois seu estilo havia sucumbido à invasão do Grunge. Fitou Tom por um tempo, até que cruzou os braços, olhou mais firmemente para ele e disse, em um tom bravo
- Você simplesmente não consegue, não é mesmo? – falava com um ar de decepção – Não consegue. Você tem quase quarenta anos e não consegue. – bFrançoisçou a cabeça negativamente – Meu deus Tom, vou desistir de você.
Tom terminou de vomitar. Sentou em frente ao vaso. Limpou a boca com a costa da mão. Ainda estava pálido, mas menos ofegante e parecia mais tranqüilo. Com a mão esquerda alisou o cabelo. Olhou para baixo, soltou uma tímida risada. Virou para a mulher
- Não é nada disso do que você está pensando, Kathy. Foi apenas um sonho...
Kathy interrompeu.
- Causado pelo seu vício em ácido. Causado pelo seu maldito vicio em ácido. O que foi desta vez? Extraterrestres? Monstros espaciais gigantes? Elefantes cor de rosa? Sabe, Tomas, você não tem mais vinte anos. Eu não tenho mais vinte anos. Por que você não vira um homem de verdade?
- Zumbis, Katherine, querida. – estava sendo irônico. – e eu estou limpo. Acredite em mim. – A mulher fez um sinal negativo com a cabeça. – Ora, vamos lá, Kathy. Eu já menti para você... – viu que a mulher o olhava com um rosto não muito amistoso –...nos últimos... – ela preparava-se para interromper – 2 ou 3 meses? Talvez semanas?
- Sim, Tom. Você mentiu para mim ontem, quando disse que havia largado as drogas de vez. – “Mas eu larguei!”. Kathy o ignorou – Não, não largou. Você tem esses malditos sonhos toda noite, não tem mais vida. Olhe para você. Onde está aquele futuro engenheiro que eu conheci em Dallas há quase vinte anos? Está enterrado sob a figura de um roqueiro frustrado que desistiu de ser alguém na vida por que a banda clone de Guns n’ Roses dele não deu certo? Olhe para você. Quem bota comida nesta casa sou eu. Eu que dou duro para alimentar, pagar suas roupas. E você? Seu trabalho, se é que você chama de emprego dar aula particular de guitarra para garotos, ganhar 600 dólares por mês, torrar a metade em maconha e a outra metade em CDs de emprego. Tomas Hawkins Terceiro, um dia eu te amei. Tentei te fazer ser alguém, mas parece que você não aprende. Estou sempre te dando uma segunda chance. Mas as chances um dia acabam.
- Querida, por Deus, por que você não acredita em mim pelo menos uma vez?
- Não invoque Deus dessa maneira. Ele pode apressar sua ida ao inferno. Eu estou ficando cansada de acreditar em você e você me decepcionar. Mamãe estava certa...
- A velha bruxa do Texas de novo? – Tom disse, rindo e interrompendo a esposa.
- Você não vale nada.
Tom sentiu o golpe. Apesar de tudo amava Katherine, e por mais que ela não quisesse acreditar, estava limpo.
- Kathy, por favor... – estava implorando. – O que eu posso fazer para compensar sua desconfiança?
- Não sei. Por hoje você pode dormir no sofá. Cansei de dividir a cama com um drogado. Amanhã pensarei no seu caso. Agora eu tenho que dormir, pois alguém nesta casa tem de trabalhar, não é mesmo?
Katherine virou as costas e seguiu de volta para o quarto. Chorava silenciosamente. Tom deu a descarga. Levantou, lavou o rosto. Tinha voltado ao normal. Tirou a camiseta, pois o incomodava devido ao cheiro de suor. Em seu peito, uma tatuagem tribal e uma cicatriz. Foi atrás de Kathy. Chegou à porta do quarto, onde Katherine lhe jogou um travesseiro e um lençol, ambos da cor branca. “Não quer mudar de idéia?”. “Boa noite, Tomas”. Tom balançou a cabeça e se dirigiu a sala. Não era a mais espaçosa do mundo e nem de longe era o melhor lugar para se dormir depois de uma briga conjugal. Ajeitou o travesseiro na ponta do sofá e se deitou. Olhou para o teto. “Ótimo, depois que eu fico sóbrio essas coisas acontecem. Muito obrigado”. Virou para o lado e pensou em coisas como “Por onde anda o pequeno Jimmy? Não o vejo desde que o Wolves acabou. Tom, seu viciado de merda. Foi isso. As ultimas palavras que ouvi dele. Estava tão bêbado que devo ter rido, não me lembro direito. Droga, o que estou fazendo da minha vida? O que eu fiz da minha vida?”. Pouco mais de quinze minutos depois havia caído no sono novamente
3 de novembro de 2008
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