13 de Outubro de 2009 – São Paulo/Brasil
“Aprenda a fazer um delicioso frango...”
- Não, obrigado. – Pedro apertou um botão e a televisão mudou de canal
“14 baleados...”
- Problema deles. – mais uma vez mudou de canal.
“A Bovespa fechou em alta de seis por cento nesta terça-feira 13...”
- Até que enfim.
“Atriz de Hollywood...”
- E eu com isso?
- Da pra parar em um canal? – Ana, a irmã mais nova de Pedro disse, após ver a impaciência do irmão com o controle remoto.
- Claro. – respondeu sem se importar, mudando mais uma vez de canal. – Nada de séries idiotas, não quero saber da porcaria do jogo da Seleção...
- Droga, da pra dar o controle ou pelo menos deixar em um canal? – A garota de cabelos negros com mechas vermelhas e olhos castanhos estava ficando nervosa
Pedro olhou de canto de olho. Virou de novo para o televisor e disse:
- Escuta aqui, vamos fazer uma simples conta: Eu nasci em maio de 92, ou seja, tenho 17. Você, porém nasceu em fevereiro de 95, ou seja, tem 15. Quem manda é sempre o mais velho.
Ana agarrou uma almofada e a apertou, claramente raivosa com a atitude do irmão. Pedro olhou mais uma vez para a irmã e resolveu fazer a vontade dela. Jogou o controle em sua direção e se levantou do sofá onde estava deitado. “Vou para o meu quarto, ouvir um pouco de música boa.” Ana deu de ombros. Pedro olhou para o gato cinza, que estava deitado em cima da mesa da sala. “Vamos, Gato”. E caminhou em direção à escada, que levava aos quartos do sobrado em que morava. Virou para trás e viu a irmã mudando de canal. “Não acredito que você assiste essa porcaria de novela”. A irmã sem desviar a atenção do programa mostrou o dedo do meio, cuja unha estava pintada de preto. Aliás, todas as unhas de todos os dedos estavam pintadas de preto. “E depois eu sou o rebelde dessa casa”, disse Pedro, rindo. Continuou subindo as escadas com o gato atrás dele. Quase chegando ao final da mesma, ouviu Ana gritando: “E o nome dele é Melvin!”. Dessa vez foi Pedro quem deu de ombros. Ao final da escada, caminhou pelo corredor.
Olhava as paredes pintadas de amarelo, com alguns quadros de paisagem, a maioria retratava praias e cidades litorâneas. Passou pelo banheiro, pelo quarto dos pais, da irmã e enfim chegou ao seu. Na porta branca de seu quarto, um circulo vermelho, escrito “Não entre” em preto, mas em vez de uma faixa vermelha indicando proibido, um raio amarelo, fazendo uma clara alusão ao símbolo do AC/DC, banda que ele adorava. Aliás, adorava quase todas dessa safra. Girou a maçaneta elíptica dourada e a porta se abriu. Entrou e deu de cara com o grande pôster do Led Zeppelin na parede do fundo, acima da janela. À esquerda, perto do guarda-roupa, todos os vinis do Megadeth em moldura. Outra banda que venerava. Do lado direito, encostado na parede sua cama e três metros à esquerda seu computador. Do lado do computador, a televisão preta estava desligada e um pouco mais para a esquerda, entre a televisão e o guarda-roupa, um teclado Yamaha, tendo atrás deste um pequeno banco, no qual Pedro se sentava quando ia tocar. Se tinha algo que realmente gostava nessa vida era seu quarto. Tinha lá tudo que queria e precisava para passar o tempo.
Caminhou até o computador e apertou um botão qualquer no teclado, fazendo com que a tela se iluminasse, revelando uma proteção de tela que mostrava vários carros de corrida, das mais diversas categorias. Apertou um botão na CPU e o estojo de CDs se abriu. Andou dessa vez até o guarda-roupa. Abriu a ultima de três gavetas do móvel de madeira que possuía, revelando um acervo invejável de CDs de rock. Procurou e escolheu o clássico Machine Head. “Deep Purple sempre me faz sentir bem.” – pensou e riu. Ouviu um ronronar e virou-se para a cama. Era o gato. Havia até se esquecido dele. Riu novamente. Fechou a gaveta e voltou para o computador. Tirou o cd e o inseriu na bandeja previamente aberta. Apertou novamente o botão e a bandeja fechou-se. Um led verde piscou, indicando que o CD estava sendo lido pela máquina. Logo, começou a tocar. Deitou-se na cama e pegou o gato cinza no colo. Apagou a luz e ficou curtindo a música. Pensou que horas eram. Tateou a cabeceira da cama até achar seu celular Motorola preto e laranja. Abriu o flip e verificou que eram oito e trinta da noite. “Devem ter ido ao motel de novo” – riu novamente. Acariciou as costas do gato e o mesmo respondeu com um ronronar.
Estava quase dormindo quando ouviu alguém bater em sua porta. Levantou-se e olhou pela janela. Não parecia que os pais haviam chegado. Concluiu que era a irmã quem batia.
- Pedro!
Sim, era ela mesma.
- Já vou! – tirou o gato de cima da barriga e o colocou do lado na cama. Andou meio cambaleante em direção à porta. Abriu e a luz que saia do corredor lhe machucou os olhos. Levou a mão em direção ao rosto, ao mesmo tempo em que virou, olhando para o quarto, que estava escuro. – Diga?
- Já são quase nove horas e eu to com fome.
- E eu com isso? – Pedro disse, com seu tradicional tom irônico levantando a sobrancelha, tentou olhar para a irmã, mas a claridade ainda o incomodava. Voltou a virar o rosto. – tenho cara de cozinheira?
- Por que você tem que ser assim? E além do mais mamãe e papai estão demorando. – parecia preocupada.
“Realmente, estão no motel.” – Pedro pensou e riu sozinho.
- Não tem graça.
- Ah, tem sim. – dessa vez já pode olhar diretamente para a garota, que estava apoiada no batente da porta. – e eu sou assim porque sou assim, oras. Ta, vamos ver o que tem pra comer.
Na verdade, não faria diferença, pois ambos não sabiam cozinhar. Pedro ia sugerir que eles pedissem uma pizza e com certeza Ana aceitaria no ato. Enquanto caminhava pelo corredor, se deparou com uma pequena mesa onde se localizavam porta retratos da família. O pai, a mãe, Pedro e a irmã. A mãe se parecia com a irmã em uma forma adulta. Tinha cabelos negros e olhos castanhos. O pai tinha cabelos não tão lisos, porém não chegavam a ser crespos. Além do mais, usava sempre muito curto, o que impedia uma noção exata. Também tinha olhos castanhos. Com certeza também havia doado genes à Ana, pois a semelhança do nariz e da boca de ambos era incrível. Pedro aproveitou para se olhar no espelho. Seu cabelo de fato se parecia com o do pai, mas gostava de usá-lo mais comprido, caindo aos ombros. Porém seus olhos eram verdes e ele não se parecia em nada com o pai ou a mãe. Era um pouco mais alto que ele e tinha um biótipo relativamente atlético, fato que não era comum em seu pai, nem em sua mãe e até onde sabe em nenhum outro grau de sua família, pelo contrário, o pai estava acima do peso e a mãe não fosse as intermináveis horas de academia também. A irmã tinha pouco mais de um metro e sessenta, a altura de sua mãe e estava trilhando o mesmo caminho do sobre peso. O pai tinha um e setenta e três e pesava cerca de oitenta quilos. Pedro, por sua vez tinha quase um e oitenta e setenta e três quilos. E era sedentário. Ao contemplar a diferença entre ele e seus familiares, pensou “Hey, hey, hey, alguém pulou a cerca!” e deu uma risada. A irmã chegou a perguntar o que houve, mas ele desconversou.
Desceram as escadas e caminharam em direção à cozinha. Todos os aparelhos eram cinza e feitos de aço. O fogão de seis bocas era prateado. A geladeira de quase dois metros de altura e filtro de água na porta era prateada. As panelas eram de aço inox. Era tudo tão metálico. A única coisa que destoava do prata-modernidade eram os armários que eram feitos de uma madeira, amarronzados. Abriu e olhou. Nada. Na verdade, até havia comida, mas nada que eles soubessem preparar. Resolveu propor a pizza, como havia planejado. Como havia planejado também a irmã aceitou de imediato. Cada um pagaria a metade. Era justo. Eram nove horas em ponto quando telefonaram para a pizzaria.
Não demorou muito e já estavam comendo sentados no sofá assistindo o jogo da seleção de futebol. Ana não era fã de esportes, ao contrário do irmão, mas suportava assistir o jogo de vez em quando. O primeiro tempo estava quase na metade quando ouviram o motor Ford V8 rugir à porta da casa amarela daquela pacata rua de um bairro mediano na zona sul de São Paulo. O barulho era inconfundível. Haviam chegado. Rapidamente se levantaram e correram para a mesa, onde colocaram os pratos com a massa italiana. Fingiram que estavam comendo civilizadamente na mesa, vendo a partida. Os pais os matariam caso vissem os dois comendo no sofá recém-comprado.
A porta branca da casa se abriu, e entraram Andréia, uma mulher com aproximadamente um metro e sessenta, cabelos mais curtos que o normal, porém ainda volumoso. Carregava consigo uma bolsa dourada e nas mãos os sapatos de salto que saíra para trabalhar mais cedo. Estava usando um óculos, pois apesar de não ser tão velha sua visão era prejudicada e Dejan, um homem de estatura média, cabelo grisalho curto e um pouco acima do peso. Carregava na mão esquerda uma maleta de couro marrom e na direita a chave do carro. Sua aparência não negava sua origem balcânica. Dejan veio para o Brasil no meio da década de 1970, fugindo do regime comunista da antiga Iugoslávia. Gostou tanto que ficou, mesmo após a queda do muro de Berlim em 1989 e a fragmentação do país em diversas outras nações, mas mesmo assim continuava sendo um perseguido político, já que atuou como militante a favor da abertura econômica. Não seria bem vindo de qualquer maneira, mas também não fazia questão, já que havia conseguido sucesso e construído família no Brasil.
- Olá crianças – saudou Andréia.
- Olá mãe – Ana se levantou e foi em direção da mãe para beijá-la no rosto. Aproveitou e fez o mesmo com o pai. Pedro limitou-se em fazer um aceno com a mão entre uma mordida e outra da pizza de calabresa e responder o “olá” da mãe. – Por que demorou tanto? Estava ficando preocupada.
- Seu pai me levou para cortar o cabelo. Além do mais tinha muito transito hoje, você conhece essa cidade. Aliás, gostou do meu novo visual?
“Corte de cabelo, eh? Sei, sei”, pensou Pedro enquanto a irmã e a mãe conversavam sobre o dia e tudo mais. Estava mais focado na pizza e no jogo do Brasil do que no “papo de mulher” da mãe e da irmã. Ouviu a irmã oferecendo um pedaço da comida e os pais recusando, alegando que já haviam comido. “Principalmente você, velho. Posso imaginar.” Se divertia pensando na possibilidade de os pais terem se atrasado por irem à um motel. Não se importava mais com isso, mas guardava para si só. Estava distraído com seus pensamentos que não ouviu o velho Dejan perguntar o placar do jogo e contra quem a seleção estava jogando.
- Ei! – gritou o pai, despertando o garoto
- Sim?
- Você ouviu o que eu disse? – parecia nervoso.
- Calma, não, repita, sim? – disse Pedro em seu tradicional tom irônico. As vezes parecia que o pai não gostava muito do tom, mas mesmo assim o garoto continuava usando. Não se importava na verdade. Gostava dos pais, mas na verdade realmente não se importava com eles. Importava-se com poucas pessoas e seus pais não estavam nesta seleta lista, até por que parecia que era recíproco. – O jogo? 0x0, Bolívia ou Venezuela, não sei ao certo.
- Por que você não pode ser igual a sua irmã? – perguntou o pai. Gostava de Pedro, mas não tanto. Preferia Ana. Não que tratasse mal o filho, mas não tinha a mesma afinidade. A mãe parecia compartilhar da idéia. Não se importavam tanto com o filho por que parecia recíproco.
- Por que eu não sou uma menininha fofa. – respondeu e riu.
Dejan ameaçou uma risada, mas deu de ombros e foi sentar no sofá para assistir o jogo. A irmã sentou-se à mesa e voltou a comer. Pedro viu a mãe subindo as escadas e conclui que ia tomar banho, afinal já era tarde. Terminou de comer, levantou-se e levou o prato para a cozinha. Voltou à sala, despediu-se do pai e da irmã e subiu para seu quarto. “Tenho a impressão que amanhã vai ser um longo dia.”
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