3 de novembro de 2008

Capítulo I - "Apresentação" - parte II

14 de Outubro de 2009 – Nova York/EUA

Um despertador toca e interrompe o sono do casal que repousa na cama ao lado. O som estridente faz com que George e Jane Thomas acordem quase que instantaneamente. Com a mão direita, George desliga o aparelho e senta-se na cama, esfregando os olhos. O pequeno relógio preto marca 6 horas e trinta e cinco minutos da manhã de 14 de Outubro de 2009. O pequeno aparelho era companheiro de longa data de George. Desde que entrara na American Airlines como piloto comercial, em janeiro de 1999 o despertador o acordava para o serviço. Jane já havia levantado e estava no banheiro, fazendo usa higiene pessoal.

- Como eu odeio isso - O mau humor e o cabelo desarrumado eram prova de que George estava dormindo profundamente - pelo menos os vôos poderiam ser a tarde, ou a noite, qualquer horário é melhor do que a manhã.

- Não diga isso. Você dizia a mesma coisa quando trabalhava de madrugada.
Jane Carlson Thomas era uma mulher de 35 anos, nascida no interior. Seus cabelos louros caiam até os ombros e seu rosto emanava uma serenidade fora do comum. Havia conhecido George há pouco mais de 10 anos, em um bar. Um amigo em comum os apresentou. Normalmente trabalhava como secretária em um escritório de advocacia no centro da cidade, mas nos últimos anos se concentrava em ser dona de casa e cuidar de George Thomas Junior. Seu filho tinha uma rara doença imunológica e necessitava de atenção em tempo integral. O menor descuido poderia levá-lo a morte.

- Certo, você está certa de novo. Não sei como o casamento está durando tanto, você está sempre certa – disse George já com melhor humor. Agora se preparava para comer um pedaço de pão que havia feito na torradeira.
George também tinha seus 30 e poucos anos, barba por fazer e cabelo curto. Tinha uma paixão por aviação e a comercial era o que havia decidido fazer como carreira. Pilotar um F-16 sobre território iraquiano não lhe atraía e não era tão patriota a ponto de defender os interesses de George Bush na guerra do Golfo. Preferia sentar-se ao comando de um Boeing ou um Airbus ao invés de um caça. Talvez no fundo não, mas a situação lhe obrigara a concluir que sim.

Já havia terminado de tomar uma caneca de café extra-forte para despertar de vez. Afinal os passageiros nem seus superiores iam gostar de um piloto com sono.

- Se cuida lá em cima – disse Jane. Sempre se preocupava quando George saía para trabalhar, mesmo convivendo com isso pelos últimos 10 anos nunca se acostumou com a possibilidade de seu marido morrer em um acidente aéreo

- Pode deixar. O espaço aéreo não é tão congestionado quanto as ruas de Nova York. – Respondeu George enquanto pegava as chaves de seu Ford Focus 2006. Era um carro bastante bom, azul. Jane retribuiu com um sorriso de canto de boca – Cuida bem do Junior.

O filho era o ponto fraco da mulher. Ao ouvir sobre ele, correu e abraçou o marido e desabou a chorar. Tinha medo de não ser boa o suficiente e deixar o filho morrer. George tratou de consolá-la

- Por que fui dizer isso? Você é uma excelente mãe, cuidará dele melhor do que qualquer outra pessoa no mundo poderia fazer – Não surtiu efeito – Ora, vamos lá, Jen. Você cuida dele deste jeito há quase 8 anos. 8 anos é. muito tempo para que acontecesse alguma coisa. E aconteceu? Não! Você e excelente como mãe. Junior já sabe disso, e quando ficar mais velho será eternamente agradecido a você.

- Vivendo deste jeito, não sei se Junior gostaria de ter uma vida longa.

Não conseguia consolá-la. Era sempre a mesma coisa quando George tinha que sair para trabalhar. Estava atrasado. Resolveu inventar uma desculpa e sair de lá o mais rápido possível.

- Escuta, tenho que ir querida. Você sabe como é o transito de Nova York... E o JFK é longe...
- Entendo. Boa sorte em sua viagem para... – hesitou
- Seattle. – complementou George com um sorriso. – Seattle. Prometo que estarei de volta em no máximo uma semana. Se cuide.

Saiu pela porta, destrancou a porta do carro e entrou. Um último adeus para Jane. Ligou o carro e partiu. Dirigiu pela rua de sua casa. Cumprimentou o velho Wilkinson, vizinho de longa data que usava a parte da manha para se exercitar. Hoje estava dando voltas no quarteirão com seu Beagle. Se não se enganava, o nome era Kurt. Nome de gente em cachorro. George achava loucura. Teve animais de estimação também, quando era criança e depois de adulto, mas teve que doar por causa de seu filho. Qualquer contato com cachorro poderia ser fatal. Assim como contato com gatos, papagaios, pessoas ou qualquer outro tipo de ser vivo ou objeto que não estivesse previamente esterilizado. A propósito, qual era mesmo o nome de seu ultimo canino? Sparky? Ou seria este o primeiro, quando tinha apenas 4 anos? Arthur? Não, nunca colocaria nome de pessoas em um animal. De qualquer maneira, não lembrava. E foi forçado a parar de pensar e se concentrar na rua, pois quase atravessou um semáforo enquanto este estava vermelho.
Saindo de seu bairro, pegou a intersecção 14, que levava direto ao aeroporto. Estranhou o fato de a via estar até andando em uma velocidade aceitável, mas sua animação foi embora após andar cerca de uma milha e meia, quando tudo parece que voltou a normalidade e o transito parou. No relógio do console do Focus azul marcava sete horas e vinte e dois minutos. Tinha mais uma hora para chegar a tempo do embarque de seu próprio avião para Seattle, senão se complicaria.

- Deus salve a América – disse ironicamente, mesmo que ninguém pudesse ouvi-lo. – E toda essa porcaria. – lamentou-se, ligando o radio do carro, musica sempre o reconfortava. Tocava Beatles – É, eu preciso de ajuda. Acertou em cheio, amigo.

- Ótimo, perfeito, eu nem tenho horário mesmo! – gritava George para si mesmo enquanto batia no volante de seu carro. Estava há meia hora parado na porcaria da intersecção 14 e aparentemente não havia nada de errado com a estrada, nenhum acidente ou coisa alguma. Era apenas mais um dia normal em Nova York. – O que eu posso fazer? O que eu posso fazer? Ainda faltam três milhas para Midtown Manhattan e mais quinze para o aeroporto. Calma, comandante Thomas, você ainda pode ligar informando que vai chegar um pouco atrasado, isso!
George ia tirando o celular do bolso quando o tráfego começou a andar. Olhou para o lado e constatou que o motivo pelo qual havia aquele congestionamento era um acidente entre dois carros, uma perua vermelha e o que parecia ser um sedã preto. Parecia, pois o estado do carro era tão deplorável que dificilmente conseguiria distinguir aquilo de um monte de ferro retorcido com o logotipo da Acura. “Não é problema meu. Meu único problema é andar 17 milhas em pouco mais de vinte minutos. Ótimo, se não levar for preso por andar tão acima do limite é bem capaz que eu acabe em algum poste pelo caminho.”
As três milhas que separavam a intersecção 14 da estrada que levava ao Aeroporto Internacional John F. Kennedy passaram rapidamente. Entrou à esquerda e quase acertou outro carro. George ignorou a buzina e acelerou. O caminho era mais fácil em linha reta, mas mesmo assim estava nervoso. Aproveitou e desligou o rádio, pois do mesmo jeito que o acalmava, a musica poderia ser muito irritante quando George estava irritado. Driblava os carros mais lentos como um exímio jogador de basquete driblava seu marcador para escorar dois pontos para sua equipe. George pensava nisso, pensava nos Knicks, seu time de basquete. “Se livra de mais um, e de outro, é incrível o que vemos por aqui, pessoal!” – pensava imitando um narrador esportivo em sua mente – “Vai se aproximando do garrafão...”. Viu um carro de polícia logo à frente e freou bruscamente, quase causando um acidente. Por sorte, Não havia um carro tão próximo de George que pudesse causar um acidente. Passou pelo Crown Victoria da polícia de Nova York como se estivesse andando ordinariamente. Andou mais trezentos metros e nem precisou mais acelerar tanto, pois seu celular tocou.
- Olá, George – era um homem do outro lado da linha
- Comandante? Olha, desculpe se estou atrasado, é que teve um acidente na intersecção 14 e com isso o trânsito...
- Certo, certo, não precisa se explicar, eu vi o acidente no noticiário. Quer dizer, no pouco espaço de tempo que eles deixaram para outras notícias no noticiário desta manhã. – George pensou em perguntar o que havia acontecido de tão importante em uma normal manhã de quarta feira. Mas preferiu esperar o comandante completar. – De qualquer forma, houve um problema com o reabastecimento do avião, o vôo vai atrasar um pouco. Te conheço, você deve estar dirigindo feito um louco por aí, então só estou te avisando para não exagerar na dose, certo George?
- Pode deixar, comandante. Mas o que foi tão importante assim que deixou o noticiário alerta a manhã toda?
- Por que você não liga o rádio e descobre? Agora, adeus George, tem uma mulher aqui querendo explicações sobre o atraso... Você sabe como eu odeio estes passageiros. – soltou uma leve risada e desligou o telefone.
George resolveu conferir o que o comandante dizia. Apertou um botão no aparelho de rádio de seu veículo e conferiu uma mensagem na tela indicando que havia saído do modo “CD” para o modo “Rádio”. Sintonizou uma famosa rádio de notícias de Nova York. A repórter falava de uma maneira inquieta. George desviou um pouco sua atenção da avenida e quase bateu em um furgão negro que vinha mais lento pela faixa da direita.
- Somente repetindo para você que sintonizou agora a NYN, as bolsas do mundo inteiro voltaram a despencar. Nasdaq abriu em queda de 14%, enquanto Dow Jones acompanhou e opera em queda de quase 9,5%. As bolsas européias também operam em baixa. Frankfurt acumula uma queda de 12,7%; Paris, 8,3% e Londres detêm o recorde negativo até agora: 17%. Estamos no telefone com um dos nomes mais populares entre economistas americanos e mundiais, Dennis Goldberg. Bom dia, senhor Goldberg, a que se...
George voltou a apertar o botão do rádio, voltando ao modo CD. “Tenho problemas demais para me preocupar com a bolsa. E não falindo a America Airlines, não tem uma real importância para mim.”
George olhou para frente e soltou um sorriso. “Senhoras e senhoras, lhes apresento JFK!”. O grande aeroporto estava já surgira à frente de George. O piloto fitou-o como sempre fazia. Adorava admirar a enorme estrutura do aeroporto mais conhecido dos Estados Unidos. O tráfego aéreo estava a todo vapor no velho JFK. De dentro de seu carro George podia ver aviões das mais diferentes nacionalidades, alemães, ingleses, franceses, japoneses, árabes... Todos estavam lá e usavam da pista de três quilômetros do aeroporto. Pegou o acesso que levava ao estacionamento dos que trabalhavam no JFK. Avistou à frente uma guarita e uma cancela. Parou. “Bom dia George” – cumprimentou um homem latino enquanto conferia a credencial do piloto. “Bom dia, Sergio.” – retribuiu George. Estava por lá há tanto tempo que já conhecia todos os guardas que se revezavam na segurança do estacionamento. George esperou a cancela se levantar e acenou para o guarda. Encontrou uma vaga vazia logo à frente. Estacionou e desceu do carro. Apertou um botão na chave e trancou as portas do veículo. Guardou a chave no bolso e caminhou de volta para a entrada. Quando passou de novo pela guarita, Sergio lhe desejou bom dia. George retribuiu e seguiu seu caminho até a entrada do Aeroporto Internacional John F. Kennedy. Conferiu o relógio. Eram nove horas em ponto. Se atrasaria meia hora se o vôo não estivesse atrasado. “Dos males o menor.” – pensou. Caminhou pela área da companhia até encontrar os companheiros.
- Comandante Jenkins, Phillip, Bill... – virou-se e avistou uma comissária loura fitando-o. – Sarah. – voltou-se para os companheiros.
- Então, o 354 para Seattle está atrasado? – disse, referindo-se ao vôo.
- Sorte sua, não, George? – disse com bom humor Phillip, um homem baixo, magro e careca. Fazia parte da equipe técnica do avião e estava na empresa há 6 anos.
George levantou as sobrancelhas, confirmando meio sem jeito, mas com bom humor.
- Bom, rapazes, agora que o co-piloto Thomas está aqui podemos ir. – disse o comandante Jenkins, rindo. Samuel Jenkins era veterano na companhia desde que George entrara. Beirava os cinqüenta e dizia que se dedicava à aviação há quarenta. Seu cabelo misturava a cor natural e os grisalhos, era alto e usava um uniforme padrão da aviação internacional. – Parece que o avião está liberado. Que tal irmos, pessoal?
A tripulação do vôo 354 tomou o caminho em direção ao Airbus A300-600R com pintura da American Airlines que estava parado na pista. Jenkins, o piloto, George, o co-piloto e Phil, o chefe dos comissários, tomaram seus lugares enquanto as comissárias, em sua maioria mulheres entre vinte e trinta e cinco anos recebiam os cerca de cento e cinqüenta passageiros que viajariam naquela manhã do dia 14. Os passageiros eram quase todos executivos que viajavam a negócios. O vôo que normalmente sairia de Nova York às 8:30 da manhã estava pronto para a decolagem aos dez primeiros minutos depois das dez horas da manhã. Da cabine, os pilotos estavam alheios à entrada de passageiros na aeronave. Quando o ultimo dos 147 passageiros entrou no avião, Phillip deu dois toques na porta da cabine, avisando que estava tudo pronto para a decolagem.
-Bom dia, aqui é o comandante Samuel Jenkins e são dez e quinze da manhã, horário de Nova York. O atraso ocorreu devido a um problema no reabastecimento da aeronave, mas a situação foi normalizada. Estou aguardando a permissão para a decolagem. Nossa primeira escala será em Detroit, de onde seguiremos para Seattle. Agradecemos a preferência e aproveitem todo o conforto que a companhia pode oferecer. Obrigado.
Logo em seguida a torre de comando autorizou a decolagem do vôo 354 e logo Sam Jenkins e George Thomas colocaram a grande aeronave para voar sobre solo americano.
“E lá vamos nós de novo.” – pensou George enquanto via as ruas de Nova York ficarem cada vez menores abaixo do avião.

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