3 de novembro de 2008

Capítulo I - "Apresentação" - parte V

14 de Outubro de 2009 – Dallas/EUA

Abriu os olhos e se viu de frente a uma pequena multidão, que gritava. Sentiu os longos cabelos louros, que caíam até a cintura. Estava em cima de um palco, segurava um microfone com a mão direita. O suor escorria pelo seu rosto.
– Essa próxima musica garanto que todos vocês aqui conhecem! É um tributo a uma das bandas que mais nos influenciou: Livin’ on a Prayer!
Olhou para o lado direito, onde estava outro homem com longos cabelos, dessa vez eram castanhos. Segurava uma Fender Stratocaster bege em posição de canhoto. Seu nome era Jim. Jim olhou para o homem com microfone, fez um sinal com a cabeça e disse: “Vamos lá, Tom!”. Tom olhou para a esquerda, onde outro homem, dessa vez completamente careca, porém com barba e um óculos escuro batia as palmas. Tinha um contrabaixo também Fender em suas mãos. Tony era seu nome? Tom não sabia ao certo. Olhou para trás. Batendo as baquetas um homem desconhecido sentava atrás de uma bateria. Tom não conseguia distinguir seu rosto. Acima do homem, uma faixa vermelha com letras pretas dizia: “Parabéns classe de 1993! Dallas se orgulha de vocês!”. “1993?” – pensou Tom. – “Estou na faculdade. Ótimo”.
O lugar onde se encontrava era relativamente pequeno e escuro. Havia alguns pôsteres de famosas bandas dos anos 80 e 70. Tom não sabia ao certo, mas adorava aquele lugar, mesmo que o cheiro de maconha fosse quase insuportável em dias de shows. “Ai estão os futuros engenheiros do Texas. Grande!” – pensou de novo Tom. Na platéia várias pessoas gritavam, mais a frente garotas gritando o que parecia ser o nome da banda que tocava, mas Tom não conseguia entender muito bem. Estavam visivelmente bêbadas e algumas de tão alcoolizadas que estavam levantam as camisetas, mostrando belos pares de seios, que encantavam a todos. No fundo, rapazes gritavam o nome da banda. Alguns tocavam guitarra imaginária, enquanto outros baixo e um rapaz solitário imitava os movimentos de uma bateria. A maioria segurava copos ou garrafas de cerveja. Tom mesmo ao olhar em cima dos amplificadores constatou que bebia uma Budweiser. Em um cinzeiro do lado da lata, um baseado estava aceso. “Ah, então é por isso que eu não me lembro de nada?” – pensou de forma irônica enquanto franzia a testa. Voltou a olhar pra frente e ouvia gritos. A introdução da musica havia começado, era melhor se concentrar em cantar.
Veio o primeiro verso, seguido do segundo. Na platéia, as garotas com os seios de fora pareciam hipnotizadas. “Maldita droga”. No fundo, alguns rapazes gritavam e levantavam as mãos, parecendo pedir ajuda ou vibrar com a musica. Tom estava muito bêbado para distinguir. Veio o segundo verso e um certo tumulto começou a acontecer no fundo do lugar onde tocavam e como o lugar era muito escuro e Tom só conseguia enxergar as pontas acesas dos cigarros alem de vultos e alguma outra coisa que os refletores acima do palco iluminavam, resolveu ignorar. O tumulto foi ficando maior, as pessoas gritavam mais. Tom ia chegar ao refrão quando Jim parou de tocar guitarra e cutucou o vocalista
- Faça alguma coisa, droga, está fora de controle!
Tom não sabia propriamente o que, mas resolveu acalmar os ânimos, afinal Jim estava sempre certo.
- Pessoal, parem com isso! Vamos apenas curtir a musica! – Percebeu que falava enrolado e lentamente. Estava drogado. Drogado e bêbado.
Jim ao ver que não dava resultado resolveu interromper a musica. Tomou o microfone de Tom, olhando feio para o amigo. Jim estava sóbrio, sempre estava.
- Vou precisar mandar os seguranças ai? O que está havendo? – Estava gritando, mas nem ele mesmo podia se ouvir, os gritos provenientes da platéia eram muito altos. Viu algumas pessoas correndo, deixando cair cerveja no chão, junto com cigarros, um tumulto realmente estava acontecendo. Jim pensou que era mais uma briga.
Tom olhou fixamente para a concentração maior de pessoas. As garotas já haviam colocado suas roupas e agora gritavam. Teve impressão de que viu sangue jorrar na platéia. “Mas que merda?”. Olhou para trás, onde estava o baterista. A bateria estava caída no chão com um barulho. De pé atrás dela não estava um homem propriamente dito. Talvez fora um dia, mas não, não era mais. Seus olhos estavam vermelhos e parecia que chorava sangue. Seu nariz se resumia a dois buracos em sua cabeça e por ele também saia sangue. Sua boca era um buraco circular com alguns dentes em volta. O que saia de lá era uma mistura de baba com sangue, que respingava em sua camiseta do Van Halen. “Um zumbi do Van Halen? O que havia naquela maconha?” – Tom gritou e riu. Jim não estava rindo. Parecia preocupado, sua palheta havia caído no chão. Estava imóvel. Também estava vendo o homem. Não era sonho, então. Tom ouviu um grito vindo do seu lado esquerdo e olhou. O careca e seu baixo eram derrubados por cerca de três homens e uma garota. Ambos pareciam mortos, mas estavam vivos. Os pescoços de ambos estavam praticamente destroçados, revelando uma grande quantidade de carne viva. Havia sangue por todo o lado e o careca era mordido na cabeça. Quando caiu, seu contrabaixo preto se chocou com a sua cabeça, abrindo um corte e deixando-o inconsciente. O óculos escuro caiu, revelando olhos vermelho-encarnados.
- Ei, Jim, algo está muito errado aqui cara. – Tom estava assustado. Jim permanecia imóvel e o homem disforme os observava. – Jim, meu chapa, vamos cair fora. – Tom ouviu um barulho de explosão. Vinha de fora do local. Olhou e a porta caiu, fazendo com que todos os que atacavam fossem embora. De uma forma estranha Jim e Tom não estavam sendo atacado. – Jim, acorda! – gritou desesperado cutucando o amigo. Não se mexia. – Ta bom, fica por ai, eu vou cair fora.
Tom virou-se e ia embora, já que a casa de shows estava vazia. Tudo estava destruído. Pelo chão, pôsteres de Judas Priest, Ozzy Osbourne, Metallica. Ouviu um som esganiçado atrás dele, em seguida um grito. O homem estava mordendo Jim no pescoço. Uma mordida e sangue começou a voar. Jim estava morto. Ou pelo menos parecia. Achou o mesmo do baixista, mas ele se levantou e correu para fora quando todos saíram. Tom não esperou mais e começou a correr. Enquanto pulou do palco, sentiu algo caindo atrás dele, forçando-o para o chão. Ouviu um barulho e sentiu muita dor. Havia quebrado o nariz, atrás dele, o homem disforme o mordia na nuca. Tentou acertar algumas cotoveladas, mas nada adiantava. Sentia uma dor profunda em sua cabeça. Uma arma repousava a seu lado direito, no chão. “Que conveniência”. Esticou a mão, mas ao invés de sentir a arma sentiu uma mordida em seu pulso. Era Jim. Tom teve sua mão arrancada na mordida. Soltou um alto grito de dor.

Tom levantou-se com um grito e uma expressão de susto na cara. Estava branco e todo molhado de suor. Seus cabelos agora eram pouco acima dos ombros. Estavam lisos e grudados a sua pele. Sua mulher levantou em seguida, assustada com o repentino despertar de Tom.
- O que houve??? – perguntou a mulher desesperadamente – Tomas, o que há de errado com você?
Tom respirava rápido. A primeira coisa que fez foi levantar a mão direita. Estava lá. Foi apenas um sonho. Levantou-se sem ouvir as palavras da mulher. Correu para o banheiro, levantou a tampa do vaso e vomitou. Pouco tempo depois sua mulher chegou ao banheiro. Tinha cabelos castanho-escuros, na mesma altura do que os de Tom, olhos verdes e pouco mais de um metro e setenta. 1,72, para ser mais exato. No momento, arrumou um pouco os cabelos desarrumados e ajeitou sua camisola rosa. Tinha um belo corpo. Conhecera Tom na faculdade de Dallas, onde ele tinha uma banda de rock, no começo dos anos noventa. Cursavam engenharia. A diferença é que ela seguiu a profissão enquanto Tom tentou ser músico, sem muito sucesso, pois seu estilo havia sucumbido à invasão do Grunge. Fitou Tom por um tempo, até que cruzou os braços, olhou mais firmemente para ele e disse, em um tom bravo
- Você simplesmente não consegue, não é mesmo? – falava com um ar de decepção – Não consegue. Você tem quase quarenta anos e não consegue. – bFrançoisçou a cabeça negativamente – Meu deus Tom, vou desistir de você.
Tom terminou de vomitar. Sentou em frente ao vaso. Limpou a boca com a costa da mão. Ainda estava pálido, mas menos ofegante e parecia mais tranqüilo. Com a mão esquerda alisou o cabelo. Olhou para baixo, soltou uma tímida risada. Virou para a mulher
- Não é nada disso do que você está pensando, Kathy. Foi apenas um sonho...
Kathy interrompeu.
- Causado pelo seu vício em ácido. Causado pelo seu maldito vicio em ácido. O que foi desta vez? Extraterrestres? Monstros espaciais gigantes? Elefantes cor de rosa? Sabe, Tomas, você não tem mais vinte anos. Eu não tenho mais vinte anos. Por que você não vira um homem de verdade?
- Zumbis, Katherine, querida. – estava sendo irônico. – e eu estou limpo. Acredite em mim. – A mulher fez um sinal negativo com a cabeça. – Ora, vamos lá, Kathy. Eu já menti para você... – viu que a mulher o olhava com um rosto não muito amistoso –...nos últimos... – ela preparava-se para interromper – 2 ou 3 meses? Talvez semanas?
- Sim, Tom. Você mentiu para mim ontem, quando disse que havia largado as drogas de vez. – “Mas eu larguei!”. Kathy o ignorou – Não, não largou. Você tem esses malditos sonhos toda noite, não tem mais vida. Olhe para você. Onde está aquele futuro engenheiro que eu conheci em Dallas há quase vinte anos? Está enterrado sob a figura de um roqueiro frustrado que desistiu de ser alguém na vida por que a banda clone de Guns n’ Roses dele não deu certo? Olhe para você. Quem bota comida nesta casa sou eu. Eu que dou duro para alimentar, pagar suas roupas. E você? Seu trabalho, se é que você chama de emprego dar aula particular de guitarra para garotos, ganhar 600 dólares por mês, torrar a metade em maconha e a outra metade em CDs de emprego. Tomas Hawkins Terceiro, um dia eu te amei. Tentei te fazer ser alguém, mas parece que você não aprende. Estou sempre te dando uma segunda chance. Mas as chances um dia acabam.
- Querida, por Deus, por que você não acredita em mim pelo menos uma vez?
- Não invoque Deus dessa maneira. Ele pode apressar sua ida ao inferno. Eu estou ficando cansada de acreditar em você e você me decepcionar. Mamãe estava certa...
- A velha bruxa do Texas de novo? – Tom disse, rindo e interrompendo a esposa.
- Você não vale nada.
Tom sentiu o golpe. Apesar de tudo amava Katherine, e por mais que ela não quisesse acreditar, estava limpo.
- Kathy, por favor... – estava implorando. – O que eu posso fazer para compensar sua desconfiança?
- Não sei. Por hoje você pode dormir no sofá. Cansei de dividir a cama com um drogado. Amanhã pensarei no seu caso. Agora eu tenho que dormir, pois alguém nesta casa tem de trabalhar, não é mesmo?
Katherine virou as costas e seguiu de volta para o quarto. Chorava silenciosamente. Tom deu a descarga. Levantou, lavou o rosto. Tinha voltado ao normal. Tirou a camiseta, pois o incomodava devido ao cheiro de suor. Em seu peito, uma tatuagem tribal e uma cicatriz. Foi atrás de Kathy. Chegou à porta do quarto, onde Katherine lhe jogou um travesseiro e um lençol, ambos da cor branca. “Não quer mudar de idéia?”. “Boa noite, Tomas”. Tom balançou a cabeça e se dirigiu a sala. Não era a mais espaçosa do mundo e nem de longe era o melhor lugar para se dormir depois de uma briga conjugal. Ajeitou o travesseiro na ponta do sofá e se deitou. Olhou para o teto. “Ótimo, depois que eu fico sóbrio essas coisas acontecem. Muito obrigado”. Virou para o lado e pensou em coisas como “Por onde anda o pequeno Jimmy? Não o vejo desde que o Wolves acabou. Tom, seu viciado de merda. Foi isso. As ultimas palavras que ouvi dele. Estava tão bêbado que devo ter rido, não me lembro direito. Droga, o que estou fazendo da minha vida? O que eu fiz da minha vida?”. Pouco mais de quinze minutos depois havia caído no sono novamente

Capítulo I - "Apresentação" - parte IV

14 de Outubro de 2009 – Tóquio/Japão

O velho Takeishi Hirogawa acendeu um charuto e sentou-se na sua poltrona, de frente para a janela que dava uma bela vista noturna à cidade de Tóquio.
Takeishi fora economista no passado, um dos mais importantes do país entre os anos 70 e 80. Acumulou muita fortuna e fama neste período, que lhe renderam contatos na política, exército entre outros. Foi considerado fundamental na industrialização japonesa com capital americano, sendo consultor de várias empresas, principalmente no setor imobiliário e automobilístico. Mas isso era passado. Os dias no palácio trocando informações com ministros e presidentes de companhias japoneses, americanas e européias havia ficado para trás. Agora tinha 63 anos, rugas e quase nenhum cabelo. Com o dinheiro, havia comprado a cobertura em Tóquio, além de uma casa de veraneio na Itália. Adorava viajar, principalmente depois da aposentadoria. Dedicava-se a ajudar o filho Kenzo a tocar as empresas que um dia foram dele, além de passar tempo com os netos, mas mesmo assim de certa forma era solitário. A solidão era causada em grande parte pela perda da companheira de longa data, Marta. Conheceu-a em um encontro de economistas nos Estados Unidos em 1973. Tinha então 27 anos e era apontado como um prodígio em seu país. A jornalista ruiva de 23 anos e cheia de sardas o encantou. Foi amor a primeira vista. Começaram a conversar e seis meses depois estavam morando juntos em um simples apartamento em Nagoya. Três anos depois veio o fruto da união, Kenzo. Quando as coisas começaram a melhorar para Takeishi, em 1978, se mudaram para a capital. Marta sempre esteve ao seu lado, quando decidiu criar sua própria empresa de consultoria econômica, quando resolveram ir para Tóquio cuidar dos negócios. Havia uma relação de respeito mutuo, tanto que haviam decidido ficar juntos para sempre, não importando o que acontecesse. Porém o câncer foi mais forte, eles tentaram de tudo. Takeishi acionou seus contatos, fizeram tratamentos em Paris, Berlim, Londres, Nova York, Havana, mas não adiantou. A resistência de Marta era baixa, já havia passado dos cinqüenta anos. Sendo assim, em fevereiro de 2003 Marta Stewart Hirogawa faleceu de câncer no cérebro. Foi o fim para o economista. Com 58 anos e um filho de 27 resolveu abandonar os negócios e se aposentar oficialmente. Não tinha mais vontade de viver, tampouco trabalhar. A neta foi um consolo para o velho Takeishi. A filha de Kenzo nasceu em março de 2004, pouco mais de um ano após a morte de sua mãe. Chamava-se Ryoko e era fruto de um namoro sem sucesso do herdeiro Hirogawa.
O interfone tocou. “Senhor Hirogawa, seu filho Kenzo está aqui”, disse uma voz vinda do aparelho. “Mande-o subir”. Poucos instantes depois, Kenzo Hirogawa surgia em frente de seu pai. Tinha 33 anos e a mesma fisionomia do pai, com alguns traços ocidentais da mãe. Não era muito alto, tinha pouco mais de setenta centímetros acima de um metro. Estava dentro dos padrões, porém um pouco abaixo do peso. O trabalho o estava consumindo. Vestia um terno preto, indicando que havia saído a pouco tempo do trabalho. Se por um lado não era um prodígio como o pai, por sua vez exercia bem a função de administrador e líder da Hirogawa Corp. Tanto que a empresa estava para ser vendida para uma das gigantes mundiais do setor de consultoria, a holandesa Van der Graaf, por quase cento e cinqüenta milhões de dólares.
- Boa noite, velho – disse Ken saudando o pai
Takeishi não respondeu, apenas sorriu e abriu a porta de madeira, estendendo a mão para fora, convidando o filho a entrar. Ken estava adentrando o apartamento quando o pai o interrompeu
- Não está esquecendo nada? – disse, apontando para os pés de Kenzo. Não havia tirado os sapatos. Takeishi ainda conservava alguns típicos costumes japoneses. Achava que todos ainda deviam, mas a globalização fez cair no esquecimento de boa parte o que seus antepassados faziam antes de existir uma placa de neon e uma rede de internet em qualquer canto do Japão.
Kenzo sorriu perante seu descuido. Retirou os sapatos e entrou no apartamento do pai.
A porta de entrada levava à sala de estar. Havia uma grande mesa retangular com seis cadeiras, dispostas em 2 pares de cada lado, uma em cada ponta. O piso era uma espécie de carpete bege, adequado para se pisar sem sapatos. A esquerda estava a cozinha, com azulejos brancos, uma mesa menor, com apenas quatro cadeiras e alguns eletrodomésticos. Passaram reto. À direita, o quarto do dono da casa. Era grande, com uma cama de casal e uma grande televisão. Passaram reto e andaram mais um pouco até chegarem na mesma sala de frente para Tóquio em que o pai repousava até receber o comunicado da presença de Kenzo. Takeishi indicou uma poltrona de couro para que o filho sentasse. Foi até o bar localizado à direita da sala, retirou uma garrafa de uísque que já estava pela metade e disse para o filho:
- 12 anos? Presente de um deputado escocês que veio aqui no começo do ano. – Colocou um pouco do liquido em um copo, que também continha algumas pedras de gelo.
- Por que não? – respondeu o filho.
Takeishi sorriu levemente e colocou um pouco em um copo para o filho. Fechou a garrafa, colocou-a de volta onde tinha pegado. Segurou um copo em cada mão e caminhou em direção ao filho. Deu o copo que estava na mão esquerda ao filho e ficou com o da mão direita. Sentou-se em uma poltrona ao lado da do filho. Voltou a fumar o charuto. Pegou outro em um estojo dourado que deixava na mesma mesa onde havia repousado o copo. Ofereceu ao filho. Sabia que Kenzo não fumava, então ouviu uma negativa.
Entre as poltronas, uma pequena mesa de vidro, apropriada para colocar bebidas. Kenzo deu um gole na bebida e a colocou na mesa. Havia um jornal sobre ela, o qual Kenzo pegou e começou a folhear. Takeishi fez a mesma coisa, colocando o copo ao lado do copo do filho.
- Gostou da noticia? – perguntou Takeishi ao ver que seu filho lia uma matéria no jornal do dia. 14 de Outubro marcava no topo da página.
- “Proposta de 112 milhões de dólares da Van der Graaf faz ações de Hirogawa dispararem do mercado”. – disse Kenzo reproduzindo o que estava escrito na primeira manchete do caderno de economia – Quem não ficaria feliz?
- Você conseguiu – disse Takeishi, que em seguida esticou a mão e deu um tapa nas costas do filho – Olhe lá para baixo. Vê todos aqueles letreiros luminosos e todas aquelas empresas anunciantes? – Do apartamento podiam-se ver vários anúncios luminosos, com grandes letras vermelhas, brancas, azuis, piscando, anunciando empresas dos mais variados serviços e nações. – Você trabalha para pelo menos 70% delas. Parabéns por me fazer orgulhoso – completou.
- Pai... Se você soubesse o que descobrimos hoje não ficaria tão feliz assim. – Kenzo estava visivelmente preocupado e não parecia tão feliz com a proposta de mais de meio bilhão de dólares por sua empresa.
O sorriso desaparecera da face de Takeishi. Agora seus olhos pareciam preocupados. Fitava o filho com uma expressão confusa, sem entender o que queria dizer. Ou pelo menos tentando não querer entender. Kenzo prosseguiu
- Fazendo análises do mercado financeiro mundial, com nossos parceiros em Londres, Dubai, Riad, Shangai, Kuala Lumpur, Nova York, Paris... – de alguma forma parecia não querer acreditar no que estava para dizer – A crise do ano passado foi apenas uma prévia do que está por vir.
- O que você quer dizer? – perguntou Takeishi visivelmente alterado – Como assim, Kenzo? Apenas uma prévia?
- Percebemos uma sutil diferença na exploração de petróleo nos países do Oriente Médio, principalmente na Arábia Saudita e no Irã. Por enquanto a diferença é algo bem sutil, coisa de vinte mil barris por dia. Mas o que é mais alarmante é que começou a cair cerca de quinze dias atrás, a redução foi de mil e quinhentos barris. Parecia que era um dia ruim, afinal, são máquinas. No outro dia, foram produzidos dois mil barris a menos. E assim está indo. Chegamos à conclusão que algum dia a redução será significativa. E quando isso acontecer – hesitou – prefiro nem pensar no que pode acontecer.
- Ora, Kenzo, não seja tão ingênuo. Aqueles petrodólares às vezes parecem infinitos. E além do mais, as bolsas estão voltando a subir, a economia ruma a estabilidade. Por que diabos os números só diminuem? Em breve devem se estabilizar. – disse, desdenhando da preocupação do filho – Se por acaso houvesse algo, todos saberíamos. Talvez não todos, mas a Van der Graaf sim. Eles também teriam percebido isso, e não ofereceriam 112 milhões de dólares na empresa.
- Talvez pai, espero que esteja certo. De qualquer forma graças ao senhor temos contatos a mais...
Takeishi o interrompeu
- Robert Van der Graaf foi consultor da empresa petrolífera mais importante da Europa. Ele trabalhou com o governo holandês e britânico. Garanto que possivelmente ele tem mais contatos do que vocês. Escute, apenas concretize a venda, certo? Assim você terá dinheiro suficiente para cuidar de você, Ryoko e...
Dessa vez o pai que foi interrompido
- Não! – Kenzo interrompeu prevendo o que o pai falaria.
- Hattori. – concluiu o pai – Ora filho, você também precisa casar, a pequena Ryoko precisa de uma mãe. Você tem quase trinta e cinco anos.
- Na verdade nem fiz 34 ainda – interrompeu – e Hattori é apenas uma boa amiga.
- Eu vi o jeito que ela te olha. O jeito que ela trata sua filha. Você sabe que eu não falaria algo pra te prejudicar, certo? Veja, preste mais atenção. – Takeishi franziu a testa em um gesto de preocupação - Por acaso quem está com sua filha hoje?
- Está com a mãe dela. – Kenzo desconversou sobre Hattori e viu seu pai suspirar – Ora, vamos. Ela também tem direito, e não é nenhuma irresponsável.
- Se não fosse vocês estariam juntos. – replicou o pai, nervoso. Odiava quando a neta ficava com a mãe. Nem a conhecia direito, tampouco sua família. Sabia que eram pessoas normais, porém os anos como economista lhe renderam uma falta de confiança extrema. As vezes desconfiava até da própria sombra.
- É, velho Takeishi, algumas coisas nunca mudam. Nunca mudam. – soltou um sorriso e deu mais um gole no whisky que estava a seu lado.
Takeishi riu também. Pegou o copo, brindou com o filho e tomou mais um gole.
Ficaram observando o movimento de Tóquio pela noite de 14 de Outubro. Havia bastante movimento. As nove horas da noite se aproximavam. O uísque estava quase no fim.
- Está com fome, Ken?
- Sim, não comi nada relevante desde as seis horas, quando sai do trabalho. O que você tem para mim? – disse Kenzo, virando-se para o pai, esperando que a pergunta havia sido um convite.
- Eu nada. – riu – vá jantar com Hattori. – viu que o filho se preparava para falar algo – E não me venha com negativas. Sinto que ela é a pessoa certa.
Kenzo desistiu de qualquer tipo de resposta e pensou em acatar a sugestão do pai. O que custaria? Hattori era jovem, bonita e trabalhava na Hirogawa faziam 3 anos. Além do mais eram bons amigos. Era sua secretária, afinal, tinham que ser bons amigos, pensou Kenzo. Além do mais, sentia-se sozinho. Só tinha tempo para o trabalho, nada mais. Nem sua filha via com freqüência. As coisas vão mudar – pensou – afinal, vou vender a empresa, terei tempo para mim e Ryoko. Sinto a falta dela.
- Vou ver o que faço – disse Kenzo. Com um gole maior tomou o resto de whisky que tinha no copo. – de qualquer modo vou jantar agora, com ou sem Hattori. Quer ir comigo?
- E estragar seu encontro? Nem pensar – o velho Takeishi ainda tinha senso de humor.
Kenzo riu de novo.
- Mas eu nem sei se ela vai aceitar. Já é tarde e é meio de semana. Talvez ela não queira sair.
O velho Takeishi lançou a ultima:
- Talvez vocês acabem tomando café da manhã juntos – e soltou uma gargalhada. Levantou-se e andou em direção a porta – Agora vá antes que fica realmente tarde.
Kenzo levou as mãos a cabeça, tentando não acreditar que o pai havia falado aquilo, porém no fundo achou engraçado e estava rindo.
- Estou indo, velho.
- Depois me conte como foi. – disse abrindo a mesma porta pela qual entraram.
Kenzo estava quase partindo quando seu pai o chamou de novo. “Não está esquecendo algo?”, disse apontando para seus pés outra vez. Kenzo sorriu, calçou os sapatos e esperou o elevador chegar. Entrou e apertou o botão que o levaria ao piso térreo. A porta de metal se fechou a sua frente e o elevador logo fez um barulho e começou a se movimentar. Pensava nas palavras de seu pai. A porta abriu com um barulho e ele saiu do elevador. Acenou para o porteiro e pegou seu celular. Começou a mexer na agenda procurando o numero de Hattori enquanto caminhava rumo ao portão que separava o prédio da rua. Abriu o portão e finalmente achou o numero de Hattori. Agora faltava achar a chave de seu Mazda RX-8 vermelho. Procurou em seu bolso e apertou um botão, o que fez com que a porta do carro fosse destravada com um clique. Entrou enquanto apertava o botão de chamada em seu celular de ultima geração. Na tela do seu telefone aparecia uma indicação de chamada. “Chamando: Hattori Rukian”. Kenzo por um momento hesitou, mas decidiu continuar. Entrou no carro e colocou a chave no contato. Colocou o celular no console e ligou o viva-voz, sincronizando o aparelho com o rádio de seu carro. “Deus abençoe a tecnologia”, pensou. Apertou o cinto de segurança quando uma mulher atendeu o telefone. Era Hattori. Tinha uma voz doce. Era uma boa pessoa.
- Alo? – disse a mulher
- Hattori? – perguntou Kenzo. Sabia que era ela, mas tinha habito de perguntar.
- Sim. – disse – Oh, é você, Ken? Aconteceu alguma coisa? – parecia preocupada
- Não, não... – disse, dando a partida no carro. O poderoso motor do Mazda fez um barulho – eu só queria saber... – hesitou
- Sim?
Silencio. Ken pensou em desligar o telefone e inventar alguma desculpa depois.
- Tem certeza que está tudo bem, Ken? – Hattori realmente estava preocupada
- Olha, peço desculpas desde já, mas tem algo que eu gostaria de falar para você – disse com pausas.
- Eu não... – parecia que ia chorar – estou demitida, estou? – claramente estava começando a chorar.
- Não, não – riu – você é uma das melhores que temos.
- Então o que foi? Estou ficando preocupada, Ken?
- É besteira, mas... – Ken percebeu que ainda estava parado apenas com o motor ligado. Girou um botão, o que fez com que os faróis de xenon de seu Mazda se acendessem, iluminando seu caminho. Engatou a primeira marcha e acelerou – é que eu gostaria de saber se você... já jantou. – disse. Riu de sua própria vergonha – viu, disse que era besteira.
- Bom, era só isso? – riu Hattori – que susto, Ken, pensei que fosse algo mais sério. Na verdade... – estava meio sem jeito.
- Ah sim, poderia ter imaginado – Kenzo estava mais sem jeito ainda. Sentia-se um idiota. Um idiota com um pouco de raiva do pai. – desculpa incomodar, te vejo amanhã.
- Não, espere! – Hattori gritou quando Ken estava prestes a desligar – Na verdade não jantei ainda, estava esquentando qualquer coisa aqui, mas posso deixar para outra hora. Tem planos?
- Olha, você não está dizendo isso só porque sou seu chefe, certo? – estava desconfiado. Hattori faria qualquer coisa para agradá-lo, e ele sabia disso.
- Não, não. Verdade. Estou disponível esta noite.
Kenzo se sentia aliviado. Parou em um cruzamento. Haviam carros demais circulando para o horário, pensou consigo antes de responder.
- Sei que está um pouco tarde, mas você não gostaria de jantar comigo? – perguntou. Se Hattori pudesse vê-lo, certamente teria corado ao ver seu chefe vermelho, sentindo-se envergonhado, mesmo fFrançoisdo pelo telefone.
- Claro! – parecia entusiasmada – vou me arrumar. Aonde iremos?
- Você escolhe. – estava feliz que havia recebido um sim. A mãe de Ryoko era a ultima mulher com quem se relacionara. Pensou que havia perdido o jeito com as mulheres. – Bom, então passo para te pegar ai na sua casa, não devo demorar.
- Certo. Então... a gente se vê daqui a pouco – realmente estava entusiasmada.
- Certo. – Kenzo também estava. – Até daqui a pouco.
- Até.
E desligou o telefone. Kenzo estava dirigindo rumo a sua casa. Iria tomar um banho, trocar de roupa e passaria na casa de Hattori. A noite prometia. Seu pai realmente não errava uma. Contaria para ele depois, agora se preocupava em chegar em casa o mais rápido possível e então levá-la para jantar. Deixaria que escolhesse o restaurante. Ou seria melhor ele escolher? Pensou novamente no pai. “Vou ligar para ele, ele deve conhecer um bom restaurante”, pensou quando começou a discar o numero do pai de seu celular. Parou. “Não, Kenzo. Você tem quase trinta e quatro anos e quer conselhos de seu pai sobre onde levar uma garota? O que há de errado com você?”. “Ora, vamos, eu não tenho tempo de conhecer restaurantes de classe por aqui, afinal minha vida é o trabalho. Se alguém fosse me recomendar um restaurante seria a própria Hattori, oras. E além do mais, o velho Takeishi tem experiência, ele saberá me ajudar”, respondeu a si mesmo, enquanto sua mente travava uma batalha com ela mesma. Voltou a discar o numero da casa do pai. Não demorou muito e ele atendeu.
- Então?
- Então o que? – surpreendeu-se ao saber que o pai sabia que era ele
- Convidou ela para jantar?
Kenzo soltou uma risada baixa.
- Sabia que você conseguiria, mas não esperava que me ligasse tão cedo. Por que ainda não está com ela?
- Vou para casa tomar um banho, depois passo para pegar ela – respondeu – mas tem um problema. Não tenho idéia aonde levá-la.
Foi a vez de Takeishi rir.
- Não tem idéia? Não acredito nisso – continuava rindo.
- Se não vai me ajudar eu vou desligar – Kenzo disse, ameaçando ficar irritado.
- Pois então desliga. – continuava rindo – Não consigo acreditar que você vai vender uma empresa de consultoria financeira por cento e doze milhões de dólares e não faz idéia de onde levar uma garota para jantar. Você as vezes é muito estranho filho.
Ao invés de ficar irritado, Kenzo pensou sozinho “É verdade”.
- Está certo. Boa noite, tenho algum tempo para decidir.
- Antes de desligar, me responda uma coisa: onde ela mora?
Kenzo preparou-se para responder, mas as palavras não vieram. Na verdade, não sabia onde ela morava. Levou uma mão à cabeça. Com a outra virava o volante para fazer uma curva. Não percebeu que o semáforo estava fechado e quase colidiu com um carro prateado que vinha na reta. O mesmo buzinou. Ligaria novamente para Hattori, então descobriria onde ela morava. A menos que ela percebesse isto antes e ligasse para ele. Seu pai o chamava na linha.
- Ken, dormiu por aí?
- Estava pensando. Boa noite pai, te ligo depois
- Mas ainda não me respondeu onde ela mora.
- Boa noite. – e desligou.
- Ele não sabe. – riu sozinho com o telefone na mão – Ele não sabe onde a garota mora. – e gargalhou mais uma vez. – Kenzo, Kenzo. – riu uma ultima vez e colocou o telefone no gancho. Voltou para seu charuto e sua poltrona, observando Tóquio pelo vidro da janela.

Capítulo I - "Apresentação" - parte III

14 de Outubro de 2009 – Paris/França

Amanhecia para um novo dia em Paris, França. Marie Bernard levantava-se para um novo dia. O dia 14 de Outubro prometia muitas emoções para ela. Era o dia de sua admissão na faculdade de engenharia. Saberia se conseguira seu sonho de cursar sua matéria favorita no College de Paris ou se teria outra decepção. Apesar de ter apenas 22 anos, tinha muitas decepções em sua vida. Não vinha de uma família tradicional, tampouco de classe alta. Vinha dos subúrbios da cidade luz, conviveu com muitos imigrantes ilegais africanos e desajustados sociais, que por exigência do padrão de vida parisiense ou por quaisquer outras razões tiveram que se isolar nos guetos. Marie também era uma isolada. Ela, sua mãe Antoniette, seu pai François e seus dois irmãos mais velhos, Jacques e Maurice.
Seu pai nunca ajudou em nada. A mãe tinha que fazer tudo sozinha. A única coisa que o velho François sabia fazer era beber. E quando bebia ficava agressivo. E quem sofria as agressões eram ela e sua mãe, as duas mulheres da casa. Nunca ousou tocar um dedo em Jacques ou Maurice, talvez porque sabia que um dia eles cresceriam e provavelmente devolveriam os maus-tratos ou porque simplesmente era mais fácil bater em mulheres. Lembra-se até hoje do dia em que o pai tentou violentar sua mãe na frente dela. Tinha apenas sete anos, em idos de 1994. François chegou bêbado e Antoniette tentou impedi-lo de entrar em casa, inutilmente. Ele ia se aproximando e havia derrubado a mãe de Marie, que por sua vez gritava para os vizinhos. “Cala a boca menina”. “Fuja Marie, chame a policia!”. “Quieta, vadia”. As palavras do pai e da mãe ecoavam até hoje em sua cabeça. Lembra-se também de correr de casa, nada mais.
Quando deu por si, estava atrasada para sua apresentação. Odiava as memórias de seu passado. Sempre foi otimista, estudiosa, se julgava pronta para a vaga no College. Não dependia apenas dela desta vez. Rapidamente levantou-se. Tirou a roupa com a qual dormira e já vestia um traje social, adequado à ocasião. Se por um lado se sentia com uma importância acima da que normalmente lhe era dada vestida naquele longo vestido negro. “Vestido preto para uma apresentação de gala na parte da manha?”, indagou para si mesma. Na verdade, queria falar com sua companheira de quarto, Diana, mas a mesma não se encontrava no pequeno apartamento que dividiam, desta vez não no subúrbio, mas também não na zona nobre de Paris. Típico para universitários.
O apartamento em si era pequeno, alugado graças ao dinheiro que ganhava em conjunto com a amiga. Possuía dois pequenos quartos, uma cozinha menor ainda e um banheiro. O verde dos cômodos já estava desbotado, mas era o melhor que conseguia pagar com seu salário. Marie trabalhava desde seus treze anos, para ajudar a mãe em casa. No começo, vendia doces preparados por sua mãe no período da tarde. A única exigência de sua mãe era que não perdesse o dia na escola. “Para seu próprio bem, querida”. Começou a ajudar a mãe na fabricação dos doces quando completou 15 anos. Era a única que ajudava naquela maldita casa. Parecia um tipo de doença que afetava os homens da família Bernard. O irmão mais velho, Jacques já tinha quase vinte anos e nenhum emprego. Só queria e cobrava. Queria mais dinheiro, para sair com os amigos, comprar bebidas e drogas. Maurice, com 17 seguia o irmão. Hoje, após a morte da mãe não vendia mais doces na rua. Trabalhava em uma lanchonete. Fazia alguns lanches que faziam sucesso. Se não conseguisse um lugar na faculdade de engenharia seria chef. Havia decidido há algum tempo. Recebera alguns convites, mas sempre optou pela engenharia. Sempre quisera saber o que a amiga Diana fazia, alem de cursar faculdade de moda. Não que se importava muito, não era de confiar muito nas pessoas. Perguntou duas vezes, a amiga não respondeu diretamente, preferiu desviar o assunto. Deu de ombros. Contanto que o dinheiro entrasse, não fazia a menor diferença se estava se prostituindo ou fazendo faxina em um asilo de caridade.
Estava quase pronta. Seu longo cabelo negro que caia até a metade das costas estava preso em um coque. Estava começando a se maquiar quando Diana entrou.
- O que você está fazendo?
- Então você não estava? Notei que estava muito silencio por aqui. Estou me arrumando, oras. Afinal a apresentação que ira definir meu futuro vai ser às dez horas.
- Da noite.
- Como assim? – perguntou Marie, sem querer acreditar muito na amiga.
- Você não leu o convite? – indagou Diana com surpresa
- Lógico que li – Abriu uma gaveta e retirou o convite – “O College de Paris convida a Srta. Marie Bernard para um jantar de...” – Interrompeu – Jantar?
- Logicamente que sim. Você precisa melhorar sua atenção, Marie.
- Esta apresentação tirou todo o resto de minha atenção, Di. Sabe, não vai ser nada fácil apresentar minha tese no College, na frente de todos aqueles conselheiros engravatados... É um ambiente que eu nunca freqüentei você sabe. E além do mais, você mais do que ninguém sabe o quanto esta apresentação ‘e importante para mim. Ela irá dizer se tudo o que eu fiz até agora foi em vão ou se valeu a pena
- Tudo valeu a pena. Tenho certeza que você será aceita. Falando nisso, sobre o que é sua tese mesmo?
- Já disse uma centena de vezes. Depois eu que sou a desatenta? – Disse Marie, com um sorriso. Não se negaria a dizer o projeto para sua amiga, nem que fosse um milhão de vezes. – Bom, levei em consideração as grandes construções humanas. Torre Eiffel, Arco do Triunfo, Estátua da Liberdade. Decidi por algo diferente
- E com isso, você vai falar sobre?
- Os portões de Brandenburg
- E o que há de tão espetacular com eles?
- Você não entenderia – finalizou o assunto Marie, que não queria perder mais de uma hora falando sobre toda a engenharia e arquitetura envolvida na construção dos portões. Alem do mais, tinha certeza de que a amiga não entenderia.
- Que seja. – Disse Diana com um leve toque de decepção. Adorava quando a amiga lhe explicava as coisas. – Agora, por que você não deixa essa roupa para mais e tarde e vai comigo comer alguma coisa?
- Que seja.

Tirou o vestido longo negro e guardou de volta cuidadosamente na caixa. Não era propriamente um vestido de gala, pois havia conseguido com muitas horas extras na lanchonete de Jean Baptiste. Comprou em um bazar qualquer, bastava ser negro e longo. Mais uma vez, foi o melhor que Marie pode comprar. Tirado o vestiu, tratou-se de se vestir de um jeito mais casual, o qual preferia. Camisa branca, calça jeans e um tênis. Tudo bem simples, mas que a fazia se sentir confortável.
- Assim esta bem melhor. – disse para a amiga, com um sorriso no rosto.
Enquanto desciam as íngremes escadas que levam à rua, pensou onde comeria. Pensou na própria lanchonete, mas estava cansada da comida que fazia lá, e além do mais Jean a havia liberado do trabalho para sua apresentação. Mesmo sendo seu patrão, se importava bastante com ela. Marie certa vez quis acreditar que Jean Baptiste era o pai que nunca tivera. “Não. Eu tive sim um pai. E ele foi um canalha, não quero outro. Jean é apenas um bom amigo.” Um dos poucos que Marie tinha. Preferia muito mais estudar matemática ou o que fosse ao invés de sair por ai à noite. Talvez a infância a tenha feito um pouco anti-social. No fundo não ligava. Tinha Diana, que lhe ajudava a pagar um teto, Jean que lhe dava emprego e Marcel, um ex-namorado que realmente gostava dela. Eram mais amigos que namorados a época, por isso não deu certo, porém nunca perderem contato e ainda saíam algumas vezes como amigos.
Já Diana era exatamente o oposto. Com cerca de um metro e sessenta e nove, cabelos castanhos que lhe caiam as costas, olhos azuis e pele bronzeada era o tipo preferido dos rapazes. Sabia disso e gostava. Desde que Marie a conhecera – e isso fazia cerca de seis anos – nunca havia rejeitado um convite para uma festa ou de um rapaz. Sempre convidava Marie: “Você precisa aproveitar mais a vida, menina”, mas sempre ouvia um “Não, obrigado”. Depois de um tempo parou de convidar.

Chegaram ao final da escada, na portaria do prédio.
- Bom dia, Claude – cumprimentou Marie.
- Bom dia, meninas – retribuiu o porteiro.
- Quais as novidades de hoje? – Marie não tinha televisão e raramente comprava o jornal, mas adorava saber as novidades.
- Parece que as coisas não andam muito bem no mercado de ações... – comentou o porteiro.
- Pouco me importa. Não vai mudar em nada minha vida mesmo – respondeu Diana.
- Pensei que isso havia acabado no começo do ano. – respondeu Marie, ignorando o comentário da amiga – Mas de qualquer forma, acho que não deve ser nada serio. Já vou indo, Claude, tenha um bom dia.
- Igualmente. – disse Claude, que prontamente levantou-se e abriu a pesada porta de ferro amarelo descascado que separava o pequeno “Jardin de Printemps” da rua. Jardim de primavera - pensava Marie. Seja lá qual fosse o motivo, não fazia mais sentido, já que nada mais florescia por ali. Quem sabe se por volta da década de 50, quando fora construído, era um belo e saudoso lugar onde brotavam flores em volta. Na verdade, pouco se importava, mas preferia desviar atenção dos comentários que a amiga fazia sobre a festa do outro dia a noite. Marie não conseguia entender como alguém ia a tantas festas em tantos dias. Talvez Diana fosse prostituta. Depois, reiterou em seus pensamentos que não se importava desde que a mesma ajudasse a pagar o aluguel.
As ruas de Paris cada vez mais encantavam Marie. A variedade de carros, de pessoas... Era tudo muito surpreendente, mesmo que morasse por aqueles lados desde que tinha 7 anos. As duas andavam errantes em busca de um lugar para comer. Na verdade, Diana seguia Marie, e vice versa. Portanto, não iam a lugar nenhum. Quando passaram em frente ao College de Paris, onde uma grande faixa anunciava as apresentações que ocorreriam àquela noite, junto a um jantar com “convidados de honra da universidade, os nobres cidadãos franceses que prestaram serviços inestimáveis ao país.”, Marie tremeu. Sentiu-se ansiosa, por pouco não desmaiou.
- Mary, você esta bem? – Diana as vezes a chamava de Mary. “Um toque americano para uma bela jovem francesa.”
- Sim, sim. Estou apenas com um pouco de fome. Falando nisso, onde estamos indo?
- Estou te seguindo.
- Eu também. Bom, que tal aquele café em frente à universidade?
- Você não quer mesmo ficar longe de lá hoje, não é mesmo? – respondeu Diana com bom humor. Marie não se deu ao trabalho de replicar, apenas soltou um sorriso assentindo.

A impaciência tomava conta de Marie ao ponto em que a tarde ia caindo sobre Paris. O relógio já marcava quase quatro horas e ela estava mais ansiosa do que nunca. Em menos de quatro horas estaria no lugar onde sempre sonhou, o College de Paris, apresentando sua tese. Precisaria ser impecável para ser aceita, pois teria concorrentes extremamente preparados. Marie se preparou para aquela noite desde que decidiu se formar em engenharia. Estudou, pesquisou, se dedicou e por isso e por toda sua história de vida se julgava merecedora de uma das trinta vagas para o curso de engenharia, com o início do curso em 2010.
Os principais engenheiros e personalidades francesas estariam lá. O presidente Debon, o reitor do College, Alain Mercier e Marie não sabia ao certo, mas havia ouvido que o chefe do exército, Fabien Grenouille estaria lá a fim de procurar novos talentos para trabalharem no exército francês. De fato, as apresentações do College eram das mais tradicionais de toda a França e era uma espécie de reunião dos intelectuais não só parisienses, mas de toda a França. Toda a tradição justificava-se pelo fato de o College ser a mais tradicional faculdade da França desde sua fundação, em meados do século XVIII, portanto uma vaga no seleto grupo de aprovados significava uma garantia de grandes oportunidades de trabalho e reconhecimento. Por isso Marie estava tão ansiosa.
“Gostaria que mamãe estivesse aqui” – pensava enquanto passava a mão pelo cabelo. Estava sentada de frente para a janela do seu pequeno apartamento, olhando o fim de tarde francês e repassando em sua mente o que diria na hora da apresentação. Havia treinado exaustivamente, mas continuava desconfiada de sua reação na frente de tantas pessoas importantes para o país.
O telefone toca uma vez. Duas. Três vezes antes de Marie tirar o aparelho do gancho.
- Boa tarde, gostaria de falar com a senhorita... Bernard. Marie Bernard? – disse uma voz feminina do outro lado da linha.
- Sim?
- Aqui é da administração do College de Paris... – Marie sentiu um frio na barriga – o jantar de hoje a noite foi cancelado e será remarcado em breve.
- Cancelado? – disse, sem querer acreditar no que a mulher dizia. – por quê?
- Sim, senhora. Não sei o motivo ao certo, mas assim que houver uma nova data lhe será enviada um novo convite. Obrigado pela compreensão.
A mulher não esperou Marie terminar de falar e desligou. Marie segurava o aparelho na mão, paralisada. Não queria acreditar no que havia ouvido. Ainda naquele dia havia visto a grande faixa anunciando o tradicional jantar de gala. “Cancelado? Por que cancelado?” – perguntava-se. “Talvez o presidente tenha outro compromisso. O que será que aconteceu?”
Sentou-se na cama e sem dizer uma palavra encostou as costas na parede. Desta vez foi seu celular que tocou. Marie pegou o aparelho que estava em um pequeno criado-mudo, o mesmo em que ficava o telefone e olhou o visor. Era Marcel quem ligava. Apertou um botão no teclado do telefone, desligando-o. Não gostaria de falar com mais ninguém naquele dia. Naquela morna noite de Paris. Marie por fim deitou-se na cama e observou pela janela a lua subir ao céu e as luzes serem ligadas por toda a capital francesa.

Capítulo I - "Apresentação" - parte II

14 de Outubro de 2009 – Nova York/EUA

Um despertador toca e interrompe o sono do casal que repousa na cama ao lado. O som estridente faz com que George e Jane Thomas acordem quase que instantaneamente. Com a mão direita, George desliga o aparelho e senta-se na cama, esfregando os olhos. O pequeno relógio preto marca 6 horas e trinta e cinco minutos da manhã de 14 de Outubro de 2009. O pequeno aparelho era companheiro de longa data de George. Desde que entrara na American Airlines como piloto comercial, em janeiro de 1999 o despertador o acordava para o serviço. Jane já havia levantado e estava no banheiro, fazendo usa higiene pessoal.

- Como eu odeio isso - O mau humor e o cabelo desarrumado eram prova de que George estava dormindo profundamente - pelo menos os vôos poderiam ser a tarde, ou a noite, qualquer horário é melhor do que a manhã.

- Não diga isso. Você dizia a mesma coisa quando trabalhava de madrugada.
Jane Carlson Thomas era uma mulher de 35 anos, nascida no interior. Seus cabelos louros caiam até os ombros e seu rosto emanava uma serenidade fora do comum. Havia conhecido George há pouco mais de 10 anos, em um bar. Um amigo em comum os apresentou. Normalmente trabalhava como secretária em um escritório de advocacia no centro da cidade, mas nos últimos anos se concentrava em ser dona de casa e cuidar de George Thomas Junior. Seu filho tinha uma rara doença imunológica e necessitava de atenção em tempo integral. O menor descuido poderia levá-lo a morte.

- Certo, você está certa de novo. Não sei como o casamento está durando tanto, você está sempre certa – disse George já com melhor humor. Agora se preparava para comer um pedaço de pão que havia feito na torradeira.
George também tinha seus 30 e poucos anos, barba por fazer e cabelo curto. Tinha uma paixão por aviação e a comercial era o que havia decidido fazer como carreira. Pilotar um F-16 sobre território iraquiano não lhe atraía e não era tão patriota a ponto de defender os interesses de George Bush na guerra do Golfo. Preferia sentar-se ao comando de um Boeing ou um Airbus ao invés de um caça. Talvez no fundo não, mas a situação lhe obrigara a concluir que sim.

Já havia terminado de tomar uma caneca de café extra-forte para despertar de vez. Afinal os passageiros nem seus superiores iam gostar de um piloto com sono.

- Se cuida lá em cima – disse Jane. Sempre se preocupava quando George saía para trabalhar, mesmo convivendo com isso pelos últimos 10 anos nunca se acostumou com a possibilidade de seu marido morrer em um acidente aéreo

- Pode deixar. O espaço aéreo não é tão congestionado quanto as ruas de Nova York. – Respondeu George enquanto pegava as chaves de seu Ford Focus 2006. Era um carro bastante bom, azul. Jane retribuiu com um sorriso de canto de boca – Cuida bem do Junior.

O filho era o ponto fraco da mulher. Ao ouvir sobre ele, correu e abraçou o marido e desabou a chorar. Tinha medo de não ser boa o suficiente e deixar o filho morrer. George tratou de consolá-la

- Por que fui dizer isso? Você é uma excelente mãe, cuidará dele melhor do que qualquer outra pessoa no mundo poderia fazer – Não surtiu efeito – Ora, vamos lá, Jen. Você cuida dele deste jeito há quase 8 anos. 8 anos é. muito tempo para que acontecesse alguma coisa. E aconteceu? Não! Você e excelente como mãe. Junior já sabe disso, e quando ficar mais velho será eternamente agradecido a você.

- Vivendo deste jeito, não sei se Junior gostaria de ter uma vida longa.

Não conseguia consolá-la. Era sempre a mesma coisa quando George tinha que sair para trabalhar. Estava atrasado. Resolveu inventar uma desculpa e sair de lá o mais rápido possível.

- Escuta, tenho que ir querida. Você sabe como é o transito de Nova York... E o JFK é longe...
- Entendo. Boa sorte em sua viagem para... – hesitou
- Seattle. – complementou George com um sorriso. – Seattle. Prometo que estarei de volta em no máximo uma semana. Se cuide.

Saiu pela porta, destrancou a porta do carro e entrou. Um último adeus para Jane. Ligou o carro e partiu. Dirigiu pela rua de sua casa. Cumprimentou o velho Wilkinson, vizinho de longa data que usava a parte da manha para se exercitar. Hoje estava dando voltas no quarteirão com seu Beagle. Se não se enganava, o nome era Kurt. Nome de gente em cachorro. George achava loucura. Teve animais de estimação também, quando era criança e depois de adulto, mas teve que doar por causa de seu filho. Qualquer contato com cachorro poderia ser fatal. Assim como contato com gatos, papagaios, pessoas ou qualquer outro tipo de ser vivo ou objeto que não estivesse previamente esterilizado. A propósito, qual era mesmo o nome de seu ultimo canino? Sparky? Ou seria este o primeiro, quando tinha apenas 4 anos? Arthur? Não, nunca colocaria nome de pessoas em um animal. De qualquer maneira, não lembrava. E foi forçado a parar de pensar e se concentrar na rua, pois quase atravessou um semáforo enquanto este estava vermelho.
Saindo de seu bairro, pegou a intersecção 14, que levava direto ao aeroporto. Estranhou o fato de a via estar até andando em uma velocidade aceitável, mas sua animação foi embora após andar cerca de uma milha e meia, quando tudo parece que voltou a normalidade e o transito parou. No relógio do console do Focus azul marcava sete horas e vinte e dois minutos. Tinha mais uma hora para chegar a tempo do embarque de seu próprio avião para Seattle, senão se complicaria.

- Deus salve a América – disse ironicamente, mesmo que ninguém pudesse ouvi-lo. – E toda essa porcaria. – lamentou-se, ligando o radio do carro, musica sempre o reconfortava. Tocava Beatles – É, eu preciso de ajuda. Acertou em cheio, amigo.

- Ótimo, perfeito, eu nem tenho horário mesmo! – gritava George para si mesmo enquanto batia no volante de seu carro. Estava há meia hora parado na porcaria da intersecção 14 e aparentemente não havia nada de errado com a estrada, nenhum acidente ou coisa alguma. Era apenas mais um dia normal em Nova York. – O que eu posso fazer? O que eu posso fazer? Ainda faltam três milhas para Midtown Manhattan e mais quinze para o aeroporto. Calma, comandante Thomas, você ainda pode ligar informando que vai chegar um pouco atrasado, isso!
George ia tirando o celular do bolso quando o tráfego começou a andar. Olhou para o lado e constatou que o motivo pelo qual havia aquele congestionamento era um acidente entre dois carros, uma perua vermelha e o que parecia ser um sedã preto. Parecia, pois o estado do carro era tão deplorável que dificilmente conseguiria distinguir aquilo de um monte de ferro retorcido com o logotipo da Acura. “Não é problema meu. Meu único problema é andar 17 milhas em pouco mais de vinte minutos. Ótimo, se não levar for preso por andar tão acima do limite é bem capaz que eu acabe em algum poste pelo caminho.”
As três milhas que separavam a intersecção 14 da estrada que levava ao Aeroporto Internacional John F. Kennedy passaram rapidamente. Entrou à esquerda e quase acertou outro carro. George ignorou a buzina e acelerou. O caminho era mais fácil em linha reta, mas mesmo assim estava nervoso. Aproveitou e desligou o rádio, pois do mesmo jeito que o acalmava, a musica poderia ser muito irritante quando George estava irritado. Driblava os carros mais lentos como um exímio jogador de basquete driblava seu marcador para escorar dois pontos para sua equipe. George pensava nisso, pensava nos Knicks, seu time de basquete. “Se livra de mais um, e de outro, é incrível o que vemos por aqui, pessoal!” – pensava imitando um narrador esportivo em sua mente – “Vai se aproximando do garrafão...”. Viu um carro de polícia logo à frente e freou bruscamente, quase causando um acidente. Por sorte, Não havia um carro tão próximo de George que pudesse causar um acidente. Passou pelo Crown Victoria da polícia de Nova York como se estivesse andando ordinariamente. Andou mais trezentos metros e nem precisou mais acelerar tanto, pois seu celular tocou.
- Olá, George – era um homem do outro lado da linha
- Comandante? Olha, desculpe se estou atrasado, é que teve um acidente na intersecção 14 e com isso o trânsito...
- Certo, certo, não precisa se explicar, eu vi o acidente no noticiário. Quer dizer, no pouco espaço de tempo que eles deixaram para outras notícias no noticiário desta manhã. – George pensou em perguntar o que havia acontecido de tão importante em uma normal manhã de quarta feira. Mas preferiu esperar o comandante completar. – De qualquer forma, houve um problema com o reabastecimento do avião, o vôo vai atrasar um pouco. Te conheço, você deve estar dirigindo feito um louco por aí, então só estou te avisando para não exagerar na dose, certo George?
- Pode deixar, comandante. Mas o que foi tão importante assim que deixou o noticiário alerta a manhã toda?
- Por que você não liga o rádio e descobre? Agora, adeus George, tem uma mulher aqui querendo explicações sobre o atraso... Você sabe como eu odeio estes passageiros. – soltou uma leve risada e desligou o telefone.
George resolveu conferir o que o comandante dizia. Apertou um botão no aparelho de rádio de seu veículo e conferiu uma mensagem na tela indicando que havia saído do modo “CD” para o modo “Rádio”. Sintonizou uma famosa rádio de notícias de Nova York. A repórter falava de uma maneira inquieta. George desviou um pouco sua atenção da avenida e quase bateu em um furgão negro que vinha mais lento pela faixa da direita.
- Somente repetindo para você que sintonizou agora a NYN, as bolsas do mundo inteiro voltaram a despencar. Nasdaq abriu em queda de 14%, enquanto Dow Jones acompanhou e opera em queda de quase 9,5%. As bolsas européias também operam em baixa. Frankfurt acumula uma queda de 12,7%; Paris, 8,3% e Londres detêm o recorde negativo até agora: 17%. Estamos no telefone com um dos nomes mais populares entre economistas americanos e mundiais, Dennis Goldberg. Bom dia, senhor Goldberg, a que se...
George voltou a apertar o botão do rádio, voltando ao modo CD. “Tenho problemas demais para me preocupar com a bolsa. E não falindo a America Airlines, não tem uma real importância para mim.”
George olhou para frente e soltou um sorriso. “Senhoras e senhoras, lhes apresento JFK!”. O grande aeroporto estava já surgira à frente de George. O piloto fitou-o como sempre fazia. Adorava admirar a enorme estrutura do aeroporto mais conhecido dos Estados Unidos. O tráfego aéreo estava a todo vapor no velho JFK. De dentro de seu carro George podia ver aviões das mais diferentes nacionalidades, alemães, ingleses, franceses, japoneses, árabes... Todos estavam lá e usavam da pista de três quilômetros do aeroporto. Pegou o acesso que levava ao estacionamento dos que trabalhavam no JFK. Avistou à frente uma guarita e uma cancela. Parou. “Bom dia George” – cumprimentou um homem latino enquanto conferia a credencial do piloto. “Bom dia, Sergio.” – retribuiu George. Estava por lá há tanto tempo que já conhecia todos os guardas que se revezavam na segurança do estacionamento. George esperou a cancela se levantar e acenou para o guarda. Encontrou uma vaga vazia logo à frente. Estacionou e desceu do carro. Apertou um botão na chave e trancou as portas do veículo. Guardou a chave no bolso e caminhou de volta para a entrada. Quando passou de novo pela guarita, Sergio lhe desejou bom dia. George retribuiu e seguiu seu caminho até a entrada do Aeroporto Internacional John F. Kennedy. Conferiu o relógio. Eram nove horas em ponto. Se atrasaria meia hora se o vôo não estivesse atrasado. “Dos males o menor.” – pensou. Caminhou pela área da companhia até encontrar os companheiros.
- Comandante Jenkins, Phillip, Bill... – virou-se e avistou uma comissária loura fitando-o. – Sarah. – voltou-se para os companheiros.
- Então, o 354 para Seattle está atrasado? – disse, referindo-se ao vôo.
- Sorte sua, não, George? – disse com bom humor Phillip, um homem baixo, magro e careca. Fazia parte da equipe técnica do avião e estava na empresa há 6 anos.
George levantou as sobrancelhas, confirmando meio sem jeito, mas com bom humor.
- Bom, rapazes, agora que o co-piloto Thomas está aqui podemos ir. – disse o comandante Jenkins, rindo. Samuel Jenkins era veterano na companhia desde que George entrara. Beirava os cinqüenta e dizia que se dedicava à aviação há quarenta. Seu cabelo misturava a cor natural e os grisalhos, era alto e usava um uniforme padrão da aviação internacional. – Parece que o avião está liberado. Que tal irmos, pessoal?
A tripulação do vôo 354 tomou o caminho em direção ao Airbus A300-600R com pintura da American Airlines que estava parado na pista. Jenkins, o piloto, George, o co-piloto e Phil, o chefe dos comissários, tomaram seus lugares enquanto as comissárias, em sua maioria mulheres entre vinte e trinta e cinco anos recebiam os cerca de cento e cinqüenta passageiros que viajariam naquela manhã do dia 14. Os passageiros eram quase todos executivos que viajavam a negócios. O vôo que normalmente sairia de Nova York às 8:30 da manhã estava pronto para a decolagem aos dez primeiros minutos depois das dez horas da manhã. Da cabine, os pilotos estavam alheios à entrada de passageiros na aeronave. Quando o ultimo dos 147 passageiros entrou no avião, Phillip deu dois toques na porta da cabine, avisando que estava tudo pronto para a decolagem.
-Bom dia, aqui é o comandante Samuel Jenkins e são dez e quinze da manhã, horário de Nova York. O atraso ocorreu devido a um problema no reabastecimento da aeronave, mas a situação foi normalizada. Estou aguardando a permissão para a decolagem. Nossa primeira escala será em Detroit, de onde seguiremos para Seattle. Agradecemos a preferência e aproveitem todo o conforto que a companhia pode oferecer. Obrigado.
Logo em seguida a torre de comando autorizou a decolagem do vôo 354 e logo Sam Jenkins e George Thomas colocaram a grande aeronave para voar sobre solo americano.
“E lá vamos nós de novo.” – pensou George enquanto via as ruas de Nova York ficarem cada vez menores abaixo do avião.

Capítulo I - "Apresentação" - parte I

13 de Outubro de 2009 – São Paulo/Brasil

“Aprenda a fazer um delicioso frango...”

- Não, obrigado. – Pedro apertou um botão e a televisão mudou de canal

14 baleados...”

- Problema deles. – mais uma vez mudou de canal.

“A Bovespa fechou em alta de seis por cento nesta terça-feira 13...”

- Até que enfim.

“Atriz de Hollywood...”

- E eu com isso?

- Da pra parar em um canal? – Ana, a irmã mais nova de Pedro disse, após ver a impaciência do irmão com o controle remoto.

- Claro. – respondeu sem se importar, mudando mais uma vez de canal. – Nada de séries idiotas, não quero saber da porcaria do jogo da Seleção...

- Droga, da pra dar o controle ou pelo menos deixar em um canal? – A garota de cabelos negros com mechas vermelhas e olhos castanhos estava ficando nervosa

Pedro olhou de canto de olho. Virou de novo para o televisor e disse:

- Escuta aqui, vamos fazer uma simples conta: Eu nasci em maio de 92, ou seja, tenho 17. Você, porém nasceu em fevereiro de 95, ou seja, tem 15. Quem manda é sempre o mais velho.

Ana agarrou uma almofada e a apertou, claramente raivosa com a atitude do irmão. Pedro olhou mais uma vez para a irmã e resolveu fazer a vontade dela. Jogou o controle em sua direção e se levantou do sofá onde estava deitado. “Vou para o meu quarto, ouvir um pouco de música boa.” Ana deu de ombros. Pedro olhou para o gato cinza, que estava deitado em cima da mesa da sala. “Vamos, Gato”. E caminhou em direção à escada, que levava aos quartos do sobrado em que morava. Virou para trás e viu a irmã mudando de canal. “Não acredito que você assiste essa porcaria de novela”. A irmã sem desviar a atenção do programa mostrou o dedo do meio, cuja unha estava pintada de preto. Aliás, todas as unhas de todos os dedos estavam pintadas de preto. “E depois eu sou o rebelde dessa casa”, disse Pedro, rindo. Continuou subindo as escadas com o gato atrás dele. Quase chegando ao final da mesma, ouviu Ana gritando: “E o nome dele é Melvin!”. Dessa vez foi Pedro quem deu de ombros. Ao final da escada, caminhou pelo corredor.

Olhava as paredes pintadas de amarelo, com alguns quadros de paisagem, a maioria retratava praias e cidades litorâneas. Passou pelo banheiro, pelo quarto dos pais, da irmã e enfim chegou ao seu. Na porta branca de seu quarto, um circulo vermelho, escrito “Não entre” em preto, mas em vez de uma faixa vermelha indicando proibido, um raio amarelo, fazendo uma clara alusão ao símbolo do AC/DC, banda que ele adorava. Aliás, adorava quase todas dessa safra. Girou a maçaneta elíptica dourada e a porta se abriu. Entrou e deu de cara com o grande pôster do Led Zeppelin na parede do fundo, acima da janela. À esquerda, perto do guarda-roupa, todos os vinis do Megadeth em moldura. Outra banda que venerava. Do lado direito, encostado na parede sua cama e três metros à esquerda seu computador. Do lado do computador, a televisão preta estava desligada e um pouco mais para a esquerda, entre a televisão e o guarda-roupa, um teclado Yamaha, tendo atrás deste um pequeno banco, no qual Pedro se sentava quando ia tocar. Se tinha algo que realmente gostava nessa vida era seu quarto. Tinha lá tudo que queria e precisava para passar o tempo.

Caminhou até o computador e apertou um botão qualquer no teclado, fazendo com que a tela se iluminasse, revelando uma proteção de tela que mostrava vários carros de corrida, das mais diversas categorias. Apertou um botão na CPU e o estojo de CDs se abriu. Andou dessa vez até o guarda-roupa. Abriu a ultima de três gavetas do móvel de madeira que possuía, revelando um acervo invejável de CDs de rock. Procurou e escolheu o clássico Machine Head. “Deep Purple sempre me faz sentir bem.” – pensou e riu. Ouviu um ronronar e virou-se para a cama. Era o gato. Havia até se esquecido dele. Riu novamente. Fechou a gaveta e voltou para o computador. Tirou o cd e o inseriu na bandeja previamente aberta. Apertou novamente o botão e a bandeja fechou-se. Um led verde piscou, indicando que o CD estava sendo lido pela máquina. Logo, começou a tocar. Deitou-se na cama e pegou o gato cinza no colo. Apagou a luz e ficou curtindo a música. Pensou que horas eram. Tateou a cabeceira da cama até achar seu celular Motorola preto e laranja. Abriu o flip e verificou que eram oito e trinta da noite. “Devem ter ido ao motel de novo” – riu novamente. Acariciou as costas do gato e o mesmo respondeu com um ronronar.

Estava quase dormindo quando ouviu alguém bater em sua porta. Levantou-se e olhou pela janela. Não parecia que os pais haviam chegado. Concluiu que era a irmã quem batia.

- Pedro!

Sim, era ela mesma.

- Já vou! – tirou o gato de cima da barriga e o colocou do lado na cama. Andou meio cambaleante em direção à porta. Abriu e a luz que saia do corredor lhe machucou os olhos. Levou a mão em direção ao rosto, ao mesmo tempo em que virou, olhando para o quarto, que estava escuro. – Diga?

- Já são quase nove horas e eu to com fome.

- E eu com isso? – Pedro disse, com seu tradicional tom irônico levantando a sobrancelha, tentou olhar para a irmã, mas a claridade ainda o incomodava. Voltou a virar o rosto. – tenho cara de cozinheira?

- Por que você tem que ser assim? E além do mais mamãe e papai estão demorando. – parecia preocupada.

“Realmente, estão no motel.” – Pedro pensou e riu sozinho.

- Não tem graça.

- Ah, tem sim. – dessa vez já pode olhar diretamente para a garota, que estava apoiada no batente da porta. – e eu sou assim porque sou assim, oras. Ta, vamos ver o que tem pra comer.

Na verdade, não faria diferença, pois ambos não sabiam cozinhar. Pedro ia sugerir que eles pedissem uma pizza e com certeza Ana aceitaria no ato. Enquanto caminhava pelo corredor, se deparou com uma pequena mesa onde se localizavam porta retratos da família. O pai, a mãe, Pedro e a irmã. A mãe se parecia com a irmã em uma forma adulta. Tinha cabelos negros e olhos castanhos. O pai tinha cabelos não tão lisos, porém não chegavam a ser crespos. Além do mais, usava sempre muito curto, o que impedia uma noção exata. Também tinha olhos castanhos. Com certeza também havia doado genes à Ana, pois a semelhança do nariz e da boca de ambos era incrível. Pedro aproveitou para se olhar no espelho. Seu cabelo de fato se parecia com o do pai, mas gostava de usá-lo mais comprido, caindo aos ombros. Porém seus olhos eram verdes e ele não se parecia em nada com o pai ou a mãe. Era um pouco mais alto que ele e tinha um biótipo relativamente atlético, fato que não era comum em seu pai, nem em sua mãe e até onde sabe em nenhum outro grau de sua família, pelo contrário, o pai estava acima do peso e a mãe não fosse as intermináveis horas de academia também. A irmã tinha pouco mais de um metro e sessenta, a altura de sua mãe e estava trilhando o mesmo caminho do sobre peso. O pai tinha um e setenta e três e pesava cerca de oitenta quilos. Pedro, por sua vez tinha quase um e oitenta e setenta e três quilos. E era sedentário. Ao contemplar a diferença entre ele e seus familiares, pensou “Hey, hey, hey, alguém pulou a cerca!” e deu uma risada. A irmã chegou a perguntar o que houve, mas ele desconversou.

Desceram as escadas e caminharam em direção à cozinha. Todos os aparelhos eram cinza e feitos de aço. O fogão de seis bocas era prateado. A geladeira de quase dois metros de altura e filtro de água na porta era prateada. As panelas eram de aço inox. Era tudo tão metálico. A única coisa que destoava do prata-modernidade eram os armários que eram feitos de uma madeira, amarronzados. Abriu e olhou. Nada. Na verdade, até havia comida, mas nada que eles soubessem preparar. Resolveu propor a pizza, como havia planejado. Como havia planejado também a irmã aceitou de imediato. Cada um pagaria a metade. Era justo. Eram nove horas em ponto quando telefonaram para a pizzaria.

Não demorou muito e já estavam comendo sentados no sofá assistindo o jogo da seleção de futebol. Ana não era fã de esportes, ao contrário do irmão, mas suportava assistir o jogo de vez em quando. O primeiro tempo estava quase na metade quando ouviram o motor Ford V8 rugir à porta da casa amarela daquela pacata rua de um bairro mediano na zona sul de São Paulo. O barulho era inconfundível. Haviam chegado. Rapidamente se levantaram e correram para a mesa, onde colocaram os pratos com a massa italiana. Fingiram que estavam comendo civilizadamente na mesa, vendo a partida. Os pais os matariam caso vissem os dois comendo no sofá recém-comprado.

A porta branca da casa se abriu, e entraram Andréia, uma mulher com aproximadamente um metro e sessenta, cabelos mais curtos que o normal, porém ainda volumoso. Carregava consigo uma bolsa dourada e nas mãos os sapatos de salto que saíra para trabalhar mais cedo. Estava usando um óculos, pois apesar de não ser tão velha sua visão era prejudicada e Dejan, um homem de estatura média, cabelo grisalho curto e um pouco acima do peso. Carregava na mão esquerda uma maleta de couro marrom e na direita a chave do carro. Sua aparência não negava sua origem balcânica. Dejan veio para o Brasil no meio da década de 1970, fugindo do regime comunista da antiga Iugoslávia. Gostou tanto que ficou, mesmo após a queda do muro de Berlim em 1989 e a fragmentação do país em diversas outras nações, mas mesmo assim continuava sendo um perseguido político, já que atuou como militante a favor da abertura econômica. Não seria bem vindo de qualquer maneira, mas também não fazia questão, já que havia conseguido sucesso e construído família no Brasil.

- Olá crianças – saudou Andréia.

- Olá mãe – Ana se levantou e foi em direção da mãe para beijá-la no rosto. Aproveitou e fez o mesmo com o pai. Pedro limitou-se em fazer um aceno com a mão entre uma mordida e outra da pizza de calabresa e responder o “olá” da mãe. – Por que demorou tanto? Estava ficando preocupada.

- Seu pai me levou para cortar o cabelo. Além do mais tinha muito transito hoje, você conhece essa cidade. Aliás, gostou do meu novo visual?

Corte de cabelo, eh? Sei, sei”, pensou Pedro enquanto a irmã e a mãe conversavam sobre o dia e tudo mais. Estava mais focado na pizza e no jogo do Brasil do que no “papo de mulher” da mãe e da irmã. Ouviu a irmã oferecendo um pedaço da comida e os pais recusando, alegando que já haviam comido. “Principalmente você, velho. Posso imaginar.” Se divertia pensando na possibilidade de os pais terem se atrasado por irem à um motel. Não se importava mais com isso, mas guardava para si só. Estava distraído com seus pensamentos que não ouviu o velho Dejan perguntar o placar do jogo e contra quem a seleção estava jogando.

- Ei! – gritou o pai, despertando o garoto

- Sim?

- Você ouviu o que eu disse? – parecia nervoso.

- Calma, não, repita, sim? – disse Pedro em seu tradicional tom irônico. As vezes parecia que o pai não gostava muito do tom, mas mesmo assim o garoto continuava usando. Não se importava na verdade. Gostava dos pais, mas na verdade realmente não se importava com eles. Importava-se com poucas pessoas e seus pais não estavam nesta seleta lista, até por que parecia que era recíproco. – O jogo? 0x0, Bolívia ou Venezuela, não sei ao certo.

- Por que você não pode ser igual a sua irmã? – perguntou o pai. Gostava de Pedro, mas não tanto. Preferia Ana. Não que tratasse mal o filho, mas não tinha a mesma afinidade. A mãe parecia compartilhar da idéia. Não se importavam tanto com o filho por que parecia recíproco.

- Por que eu não sou uma menininha fofa. – respondeu e riu.

Dejan ameaçou uma risada, mas deu de ombros e foi sentar no sofá para assistir o jogo. A irmã sentou-se à mesa e voltou a comer. Pedro viu a mãe subindo as escadas e conclui que ia tomar banho, afinal já era tarde. Terminou de comer, levantou-se e levou o prato para a cozinha. Voltou à sala, despediu-se do pai e da irmã e subiu para seu quarto. “Tenho a impressão que amanhã vai ser um longo dia.”