14 de Outubro de 2009 – Paris/França
Amanhecia para um novo dia em Paris, França. Marie Bernard levantava-se para um novo dia. O dia 14 de Outubro prometia muitas emoções para ela. Era o dia de sua admissão na faculdade de engenharia. Saberia se conseguira seu sonho de cursar sua matéria favorita no College de Paris ou se teria outra decepção. Apesar de ter apenas 22 anos, tinha muitas decepções em sua vida. Não vinha de uma família tradicional, tampouco de classe alta. Vinha dos subúrbios da cidade luz, conviveu com muitos imigrantes ilegais africanos e desajustados sociais, que por exigência do padrão de vida parisiense ou por quaisquer outras razões tiveram que se isolar nos guetos. Marie também era uma isolada. Ela, sua mãe Antoniette, seu pai François e seus dois irmãos mais velhos, Jacques e Maurice.
Seu pai nunca ajudou em nada. A mãe tinha que fazer tudo sozinha. A única coisa que o velho François sabia fazer era beber. E quando bebia ficava agressivo. E quem sofria as agressões eram ela e sua mãe, as duas mulheres da casa. Nunca ousou tocar um dedo em Jacques ou Maurice, talvez porque sabia que um dia eles cresceriam e provavelmente devolveriam os maus-tratos ou porque simplesmente era mais fácil bater em mulheres. Lembra-se até hoje do dia em que o pai tentou violentar sua mãe na frente dela. Tinha apenas sete anos, em idos de 1994. François chegou bêbado e Antoniette tentou impedi-lo de entrar em casa, inutilmente. Ele ia se aproximando e havia derrubado a mãe de Marie, que por sua vez gritava para os vizinhos. “Cala a boca menina”. “Fuja Marie, chame a policia!”. “Quieta, vadia”. As palavras do pai e da mãe ecoavam até hoje em sua cabeça. Lembra-se também de correr de casa, nada mais.
Quando deu por si, estava atrasada para sua apresentação. Odiava as memórias de seu passado. Sempre foi otimista, estudiosa, se julgava pronta para a vaga no College. Não dependia apenas dela desta vez. Rapidamente levantou-se. Tirou a roupa com a qual dormira e já vestia um traje social, adequado à ocasião. Se por um lado se sentia com uma importância acima da que normalmente lhe era dada vestida naquele longo vestido negro. “Vestido preto para uma apresentação de gala na parte da manha?”, indagou para si mesma. Na verdade, queria falar com sua companheira de quarto, Diana, mas a mesma não se encontrava no pequeno apartamento que dividiam, desta vez não no subúrbio, mas também não na zona nobre de Paris. Típico para universitários.
O apartamento em si era pequeno, alugado graças ao dinheiro que ganhava em conjunto com a amiga. Possuía dois pequenos quartos, uma cozinha menor ainda e um banheiro. O verde dos cômodos já estava desbotado, mas era o melhor que conseguia pagar com seu salário. Marie trabalhava desde seus treze anos, para ajudar a mãe em casa. No começo, vendia doces preparados por sua mãe no período da tarde. A única exigência de sua mãe era que não perdesse o dia na escola. “Para seu próprio bem, querida”. Começou a ajudar a mãe na fabricação dos doces quando completou 15 anos. Era a única que ajudava naquela maldita casa. Parecia um tipo de doença que afetava os homens da família Bernard. O irmão mais velho, Jacques já tinha quase vinte anos e nenhum emprego. Só queria e cobrava. Queria mais dinheiro, para sair com os amigos, comprar bebidas e drogas. Maurice, com 17 seguia o irmão. Hoje, após a morte da mãe não vendia mais doces na rua. Trabalhava em uma lanchonete. Fazia alguns lanches que faziam sucesso. Se não conseguisse um lugar na faculdade de engenharia seria chef. Havia decidido há algum tempo. Recebera alguns convites, mas sempre optou pela engenharia. Sempre quisera saber o que a amiga Diana fazia, alem de cursar faculdade de moda. Não que se importava muito, não era de confiar muito nas pessoas. Perguntou duas vezes, a amiga não respondeu diretamente, preferiu desviar o assunto. Deu de ombros. Contanto que o dinheiro entrasse, não fazia a menor diferença se estava se prostituindo ou fazendo faxina em um asilo de caridade.
Estava quase pronta. Seu longo cabelo negro que caia até a metade das costas estava preso em um coque. Estava começando a se maquiar quando Diana entrou.
- O que você está fazendo?
- Então você não estava? Notei que estava muito silencio por aqui. Estou me arrumando, oras. Afinal a apresentação que ira definir meu futuro vai ser às dez horas.
- Da noite.
- Como assim? – perguntou Marie, sem querer acreditar muito na amiga.
- Você não leu o convite? – indagou Diana com surpresa
- Lógico que li – Abriu uma gaveta e retirou o convite – “O College de Paris convida a Srta. Marie Bernard para um jantar de...” – Interrompeu – Jantar?
- Logicamente que sim. Você precisa melhorar sua atenção, Marie.
- Esta apresentação tirou todo o resto de minha atenção, Di. Sabe, não vai ser nada fácil apresentar minha tese no College, na frente de todos aqueles conselheiros engravatados... É um ambiente que eu nunca freqüentei você sabe. E além do mais, você mais do que ninguém sabe o quanto esta apresentação ‘e importante para mim. Ela irá dizer se tudo o que eu fiz até agora foi em vão ou se valeu a pena
- Tudo valeu a pena. Tenho certeza que você será aceita. Falando nisso, sobre o que é sua tese mesmo?
- Já disse uma centena de vezes. Depois eu que sou a desatenta? – Disse Marie, com um sorriso. Não se negaria a dizer o projeto para sua amiga, nem que fosse um milhão de vezes. – Bom, levei em consideração as grandes construções humanas. Torre Eiffel, Arco do Triunfo, Estátua da Liberdade. Decidi por algo diferente
- E com isso, você vai falar sobre?
- Os portões de Brandenburg
- E o que há de tão espetacular com eles?
- Você não entenderia – finalizou o assunto Marie, que não queria perder mais de uma hora falando sobre toda a engenharia e arquitetura envolvida na construção dos portões. Alem do mais, tinha certeza de que a amiga não entenderia.
- Que seja. – Disse Diana com um leve toque de decepção. Adorava quando a amiga lhe explicava as coisas. – Agora, por que você não deixa essa roupa para mais e tarde e vai comigo comer alguma coisa?
- Que seja.
Tirou o vestido longo negro e guardou de volta cuidadosamente na caixa. Não era propriamente um vestido de gala, pois havia conseguido com muitas horas extras na lanchonete de Jean Baptiste. Comprou em um bazar qualquer, bastava ser negro e longo. Mais uma vez, foi o melhor que Marie pode comprar. Tirado o vestiu, tratou-se de se vestir de um jeito mais casual, o qual preferia. Camisa branca, calça jeans e um tênis. Tudo bem simples, mas que a fazia se sentir confortável.
- Assim esta bem melhor. – disse para a amiga, com um sorriso no rosto.
Enquanto desciam as íngremes escadas que levam à rua, pensou onde comeria. Pensou na própria lanchonete, mas estava cansada da comida que fazia lá, e além do mais Jean a havia liberado do trabalho para sua apresentação. Mesmo sendo seu patrão, se importava bastante com ela. Marie certa vez quis acreditar que Jean Baptiste era o pai que nunca tivera. “Não. Eu tive sim um pai. E ele foi um canalha, não quero outro. Jean é apenas um bom amigo.” Um dos poucos que Marie tinha. Preferia muito mais estudar matemática ou o que fosse ao invés de sair por ai à noite. Talvez a infância a tenha feito um pouco anti-social. No fundo não ligava. Tinha Diana, que lhe ajudava a pagar um teto, Jean que lhe dava emprego e Marcel, um ex-namorado que realmente gostava dela. Eram mais amigos que namorados a época, por isso não deu certo, porém nunca perderem contato e ainda saíam algumas vezes como amigos.
Já Diana era exatamente o oposto. Com cerca de um metro e sessenta e nove, cabelos castanhos que lhe caiam as costas, olhos azuis e pele bronzeada era o tipo preferido dos rapazes. Sabia disso e gostava. Desde que Marie a conhecera – e isso fazia cerca de seis anos – nunca havia rejeitado um convite para uma festa ou de um rapaz. Sempre convidava Marie: “Você precisa aproveitar mais a vida, menina”, mas sempre ouvia um “Não, obrigado”. Depois de um tempo parou de convidar.
Chegaram ao final da escada, na portaria do prédio.
- Bom dia, Claude – cumprimentou Marie.
- Bom dia, meninas – retribuiu o porteiro.
- Quais as novidades de hoje? – Marie não tinha televisão e raramente comprava o jornal, mas adorava saber as novidades.
- Parece que as coisas não andam muito bem no mercado de ações... – comentou o porteiro.
- Pouco me importa. Não vai mudar em nada minha vida mesmo – respondeu Diana.
- Pensei que isso havia acabado no começo do ano. – respondeu Marie, ignorando o comentário da amiga – Mas de qualquer forma, acho que não deve ser nada serio. Já vou indo, Claude, tenha um bom dia.
- Igualmente. – disse Claude, que prontamente levantou-se e abriu a pesada porta de ferro amarelo descascado que separava o pequeno “Jardin de Printemps” da rua. Jardim de primavera - pensava Marie. Seja lá qual fosse o motivo, não fazia mais sentido, já que nada mais florescia por ali. Quem sabe se por volta da década de 50, quando fora construído, era um belo e saudoso lugar onde brotavam flores em volta. Na verdade, pouco se importava, mas preferia desviar atenção dos comentários que a amiga fazia sobre a festa do outro dia a noite. Marie não conseguia entender como alguém ia a tantas festas em tantos dias. Talvez Diana fosse prostituta. Depois, reiterou em seus pensamentos que não se importava desde que a mesma ajudasse a pagar o aluguel.
As ruas de Paris cada vez mais encantavam Marie. A variedade de carros, de pessoas... Era tudo muito surpreendente, mesmo que morasse por aqueles lados desde que tinha 7 anos. As duas andavam errantes em busca de um lugar para comer. Na verdade, Diana seguia Marie, e vice versa. Portanto, não iam a lugar nenhum. Quando passaram em frente ao College de Paris, onde uma grande faixa anunciava as apresentações que ocorreriam àquela noite, junto a um jantar com “convidados de honra da universidade, os nobres cidadãos franceses que prestaram serviços inestimáveis ao país.”, Marie tremeu. Sentiu-se ansiosa, por pouco não desmaiou.
- Mary, você esta bem? – Diana as vezes a chamava de Mary. “Um toque americano para uma bela jovem francesa.”
- Sim, sim. Estou apenas com um pouco de fome. Falando nisso, onde estamos indo?
- Estou te seguindo.
- Eu também. Bom, que tal aquele café em frente à universidade?
- Você não quer mesmo ficar longe de lá hoje, não é mesmo? – respondeu Diana com bom humor. Marie não se deu ao trabalho de replicar, apenas soltou um sorriso assentindo.
A impaciência tomava conta de Marie ao ponto em que a tarde ia caindo sobre Paris. O relógio já marcava quase quatro horas e ela estava mais ansiosa do que nunca. Em menos de quatro horas estaria no lugar onde sempre sonhou, o College de Paris, apresentando sua tese. Precisaria ser impecável para ser aceita, pois teria concorrentes extremamente preparados. Marie se preparou para aquela noite desde que decidiu se formar em engenharia. Estudou, pesquisou, se dedicou e por isso e por toda sua história de vida se julgava merecedora de uma das trinta vagas para o curso de engenharia, com o início do curso em 2010.
Os principais engenheiros e personalidades francesas estariam lá. O presidente Debon, o reitor do College, Alain Mercier e Marie não sabia ao certo, mas havia ouvido que o chefe do exército, Fabien Grenouille estaria lá a fim de procurar novos talentos para trabalharem no exército francês. De fato, as apresentações do College eram das mais tradicionais de toda a França e era uma espécie de reunião dos intelectuais não só parisienses, mas de toda a França. Toda a tradição justificava-se pelo fato de o College ser a mais tradicional faculdade da França desde sua fundação, em meados do século XVIII, portanto uma vaga no seleto grupo de aprovados significava uma garantia de grandes oportunidades de trabalho e reconhecimento. Por isso Marie estava tão ansiosa.
“Gostaria que mamãe estivesse aqui” – pensava enquanto passava a mão pelo cabelo. Estava sentada de frente para a janela do seu pequeno apartamento, olhando o fim de tarde francês e repassando em sua mente o que diria na hora da apresentação. Havia treinado exaustivamente, mas continuava desconfiada de sua reação na frente de tantas pessoas importantes para o país.
O telefone toca uma vez. Duas. Três vezes antes de Marie tirar o aparelho do gancho.
- Boa tarde, gostaria de falar com a senhorita... Bernard. Marie Bernard? – disse uma voz feminina do outro lado da linha.
- Sim?
- Aqui é da administração do College de Paris... – Marie sentiu um frio na barriga – o jantar de hoje a noite foi cancelado e será remarcado em breve.
- Cancelado? – disse, sem querer acreditar no que a mulher dizia. – por quê?
- Sim, senhora. Não sei o motivo ao certo, mas assim que houver uma nova data lhe será enviada um novo convite. Obrigado pela compreensão.
A mulher não esperou Marie terminar de falar e desligou. Marie segurava o aparelho na mão, paralisada. Não queria acreditar no que havia ouvido. Ainda naquele dia havia visto a grande faixa anunciando o tradicional jantar de gala. “Cancelado? Por que cancelado?” – perguntava-se. “Talvez o presidente tenha outro compromisso. O que será que aconteceu?”
Sentou-se na cama e sem dizer uma palavra encostou as costas na parede. Desta vez foi seu celular que tocou. Marie pegou o aparelho que estava em um pequeno criado-mudo, o mesmo em que ficava o telefone e olhou o visor. Era Marcel quem ligava. Apertou um botão no teclado do telefone, desligando-o. Não gostaria de falar com mais ninguém naquele dia. Naquela morna noite de Paris. Marie por fim deitou-se na cama e observou pela janela a lua subir ao céu e as luzes serem ligadas por toda a capital francesa.
3 de novembro de 2008
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